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12 de janeiro de 2026

Com Amor, Mamãe, de Iliana Xander: um thriller com maternidade e vingança

Eu nunca fui uma leitora de thrillers, mas tenho me aventurado mais nesse estilo ultimamente. Nessa jornada de conhecer livros dentro desse gênero, eu já li muita coisa boa, mas também já li muita coisa ruim. Com Amor, Mamãe me chamou a atenção pela premissa: uma escritora famosa, Elizabeth Casper, morre após sofrer uma queda durante sua caminhada matinal e parece que os únicos comovidos são seus fãs. A família, em especial a filha, Mackenzie, não parece estar sofrendo.

Eu, que apesar de não ter tanta experiência com thrillers, amo um bom drama familiar, principalmente quando envolve assuntos de maternidade. Logo, a sinopse de Com Amor, Mamãe me ganhou. A forma como a Elizabeth morreu acaba levantando suspeitas: será que foi mesmo um acidente? Tudo fica ainda mais estranho quando Mackenzie começa a receber cartas estranhas que contam o passado de seus pais, um passado que envolve acontecimentos trágicos, traições e vingança.

A narrativa começa rápida, mas, eu senti que foi ficando lenta. A primeira carta chega já bem no início do livro e a história já mostra a que veio. Mas depois de alguns capítulos, eu senti que a história fica muito presa nos mesmos pontos, repetitiva e sem revelar nada de realmente novo. Particularmente, eu senti dificuldade em me envolver de verdade com a história e com os personagens. O mistério central, se a morte foi natural ou resultado de um assassinato, não me prendeu como eu esperava. Demorei para me importar, e essa sensação de distanciamento acompanhou boa parte da minha leitura.

Por outro lado, os capítulos curtos e o fato de o livro alternar perspectivas através das cartas deixou a leitura bem dinâmica. Talvez o problema não seja tanto o ritmo, mas o fato de que eu não me importei tanto assim com o desenvolvimento. Uma sensação de "Tá, mas, e daí?". Como se eu quisesse chegar logo ao desfecho, porque o processo não estava tão envolvente, principalmente por conta das repetições que parecem só "encher linguiça".

A Mackenzie é a típica jovem ressentida e insegura e, honestamente, acho que eu estou um pouco velha para esse tipo de narradora. Na maior parte do tempo, suas frases de impacto e sua "pseudorebeldia" só me faziam revirar os olhos de tédio. Fora o fato de que ela fica o tempo todo dizendo o quanto o amigo dela, por quem ela é apaixonada, é um gato musculoso (PREGUIÇAAAA). Eu realmente acho que o livro poderia ter sido bem mais profundo do que foi. Afinal, a gente tem uma jovem vivendo o luto por uma mãe que não era afetuosa ou acolhedora. Imaginem quantas emoções conflitantes isso não deve causar. Mas aí, a narrativa prefere se concentrar no romance adolescente entre ela e o melhor amigo que finge não perceber que ela é louca por ele.

Por outro lado, as cartas e os trechos que se concentravam na história de Elizabeth eram bem mais interessantes. A história de vida trágica da escritora foi, no geral, uma parte mais interessante do livro e tentar desvendar quem ela era de verdade foi divertido.

Mas o grande trunfo do livro são as reviravoltas finais. Quando elas começam a acontecer, o impacto é real. As revelações são chocantes e mudam completamente a leitura do que veio antes. É aquele tipo de plot twist que faz o leitor repensar tudo. Mas, infelizmente, as revelações demoram a acontecer, e como elas carregam quase todo o peso narrativo, o percurso até chegar nelas me pareceu arrastado. Fica a sensação de que o livro depende demais do final para justificar a jornada. Em vários momentos, eu senti vontade de fazer leitura dinâmica porque parecia que o livro estava demorando demais pra chegar onde precisava.

Além disso, as reviravoltas e soluções são bastante mirabolantes. Em alguns momentos, é preciso aceitar o absurdo das revelações e “entrar na onda”. Para quem já está habituado a thrillers, isso talvez seja parte da diversão. Para mim, que sou relativamente nova no gênero, tem sido um exercício de entender e aceitar que esse exagero faz parte.

No fim, Com Amor, Mamãe foi um livro que não me cativou durante o processo de leitura, mas foi um livro que me surpreendeu e ganhou meu interesse nos desfechos. É uma hitória repleta de clichês e os personagens são bem pouco desenvolvidos. No geral, a gente tem a mãe fria, a filha rejeitada, o pai que não faz diferença nenhuma em nada e outros personagens igualmente rasos.

É uma obra que pode frustrar leitores que valorizam ritmo, complexidade narrativa e envolvimento emocional constante, mas que provavelmente agradará quem gosta de finais impactantes e reviravoltas ousadas (mesmo que beirando o absurdo kk). Pra vocês, um final impactante compensa uma leitura que não cativou no desenvolvimento?

Título Original: Love, Mom ✦ Autora: Iliana Xander ✦ Páginas: 336
 Tradução: Renato Marques ✦ Editora: Intrínseca
Livro recebido em parceria com editora

6 de janeiro de 2026

Nós Já Moramos Aqui, de Marcus Kliewer: o que eu achei do livro que vem dividindo opniões

Nós Já Moramos Aqui é um thriller psicológico com elementos de terror. Livro de estreia do canadense Marcus Kliewer, a história tem uma origem bem interessante: começou como um conto postado num fórum do Reddit, onde o autor podia dialogar diretamente com uma comunidade ávida por narrativas macabras. O impacto foi tão grande que o conto se transformou em livro e, não muito tempo depois, chamou a atenção da Netflix, que adquiriu os direitos para adaptá-lo em filme. A adaptação já conta com a atriz Blake Lively confirmada no elenco e já possui uma base sólida de fãs e entusiastas.

Logo de início, Nós Já Moramos Aqui mergulha o leitor em um clima de estranhamento absoluto. A premissa acompanha um casal de mulheres que trabalha comprando casas antigas, reformando e revendendo, até que uma dessas casas se torna o centro de uma experiência perturbadora. Quando a protagonista recebe, sozinha, a visita inesperada de uma família cujo pai afirma ter vivido ali na infância, o que parecia um momento inocente rapidamente se transforma em algo inquietante.

Imagine estar sozinha na sua casa quando uma família bate à porta pedindo para entrar. O pai, muito simpático e compreensivo, diz que vai entender se você não aceitar, mas que ele gostaria muito de mostrar a casa em que ele viveu na infância para sua esposa e filhos. Você, uma pessoa tímida, insegura, ansiosa e com uma tremenda dificuldade em impor limites, acaba aceitando. A partir daí, nada nunca mais será o mesmo.

A palavra que melhor define esse livro é: perturbador. Mas também poderia ser: estranho. Esquisito. Inquietante. Desconfortável. Enfim, é um daqueles livros que nos deixam com uma sensação estranha de "Eu não sei exatamente porque, mas algo está muito errado". A família que só queria visitar a casa simplesmente não vai embora. Sempre há uma desculpa nova para permanecer um pouco mais. E essa permanência forçada cria uma sensação crescente de invasão, ansiedade e impotência, tanto para a protagonista quanto para o leitor.

Eu, uma pessoa introspectiva, introvertida e que amo ficar sozinha em casa, não consegui não roer as unhas enquanto lia o livro e me imaginava vivendo esse pesadelo. O comportamento da família é estranho, mas nada que seja explicitamente errado ou desrespeitoso. Mesmo assim, tudo parece deslocado e fora do eixo. E vai ficando cada vez pior, quando coisas realmente assustadoras e inexplicáveis começam a acontecer. É mais uma história que vai te fazer questionar: a protagonista é maluca ou essas coisas estão realmente acontecendo?

E por falar na protagonista, Eve, uma das coisas que o livro faz muito bem logo de início é apresentá-la de forma humana e identificável. Já no primeiro capítulo entendemos que tipo de personagem iremos acompanhar: uma mulher ansiosa, insegura, tímida, claramente introspectiva e muito reclusa. Ela é do tipo que valoriza profundamente seu espaço e qualquer invasão gera desconforto quase imediato. Quando a família aparece na porta pedindo para entrar, ela não quer que eles entrem, mas, ao mesmo tempo, ela não encontra em si a firmeza necessária para dizer "não". É uma personagem que frequentemente usa a namorada, Charlie, como escudo social. E nesse momento, sem Charlie, ela fica vulnerável, exposta, e acaba cedendo.

Outro detalhe que aprofunda ainda mais essa construção da personagem é a presença de uma “voz” interna, que ela chama de Mo, e que podemos compreender como a personificação da sua própria ansiedade. Essa estratégia narrativa é interessante porque deixa claro, sem precisar explicar demais, de onde vêm as inseguranças e os medos dela. Essa voz está sempre lhe dizendo que coisas ruins vão acontecer, assustando-a ainda mais.

A ambientação do livro também merece destaque, porque é construída de maneira tão precisa que o leitor começa a sentir o estranhamento antes mesmo de qualquer acontecimento abertamente bizarro. Mesmo nas primeiras interações, quando teoricamente nada de errado está acontecendo, já existe um desconforto no ar. E isso é tão bem trabalhado que fica fácil imaginar a adaptação para o cinema: toda essa atmosfera inquietante, esse ar pesado e esquisito, tem um potencial enorme para funcionar visualmente, porque grande parte do horror do livro não está nos acontecimentos, mas na sensação constante de que algo está errado, mesmo quando não conseguimos apontar exatamente o quê. Objetos que somem, caracteristicas da casa que mudam de uma hora para outra, a sensação de estar sendo observada, pessoas se comportando de formas estranhíssimas... Tudo parece simplesmente errado, muito errado. Isso sem falar nos jump scares que o livro trás e que eu mal posso esperar para ver na TV.

É engraçado porque esse livro pode ser tanto sobre problemas mentais, quanto sobre fantasmas. Mas também pode ser sobre universos paralelos ou sobre alienígenas. Se preferir, pode ser sobre portais multidimensionais ou sobre entidades malignas. Tudo vai depender da sua interpretação. Existe, claro, uma interpretação que é a mais aceita pelos leitores, mas nada impede que você interprete como quiser.

Apesar desses pontos positivos, Nós Já Moramos Aqui não funcionou TÃO bem assim pra mim como eu vi que funcionou para algumas pessoas. Ao invés de achá-lo apenas genial, eu o achei um pouco cansativo em alguns momentos Em partes, isso pode se dar porque a história era, originalmente, um conto, e o autor precisou deixá-la maior para que se tornasse um romance. Além disso, entre os capítulos, o livro apresenta textos aparentemente aleatórios, mas que se conectam à história principal. Esses textos só farão sentido ao final do livro, o que é bastante interessante. Mas, no processo de leitura em si, é meio chato essas interrupções e eu precisei resistir bastante ao desejo de pular esses trechos.

Eu gosto de histórias malucas, sinistras e que estimulam a criação de teorias entre os leitores. Inclusive, esse livro me lembrou muito um dos meus livros preferidos: Eu Estou Pensando em Acabar Com Tudo. Fazia muito tempo que eu não lia um livro que me deixasse intrigada e confusa dessa forma. Porém, Nós Já Moramos Aqui deixa muitas pontas soltas e não entrega respostas claras, o que faz parte da experiência, mas também pode deixar a sensação de que algo ficou inacabado. Eu entendo a intenção, mas ainda assim senti falta de um fechamento um pouco mais coeso. Além disso, há coisas que são inseridas no livro apenas para criar dificuldades, mas sem nenhuma justificativa plausível. Como, por exemplo, a inserção de frases em código morse, sendo que a história não tem absolutamente nada a ver com isso. A impressão que dá é que é só pra parecer mais inteligente, sem necessariamente ser.

Mas, deixando claro: eu gostei do livro!!! Gostei da experência de leitura e gostei mais ainda do pós-leitura, quando pesquisei resenhas, opniões e teorias de outros leitores. Inclusive, acho que pra esse livro funcionar bem e atingir todo o seu potêncial, ele deve ser lido e debatido coletivamente. A leitura por si só pode ser legal, mas criar, compartilhar e debater teorias é a melhor parte.

No geral, Nós Já Moramos Aqui é um livro que vale a pena principalmente pela experiência de leitura: tensa, angustiante e cheia de estranhamentos. Não é um livro que entrega respostas, mas entrega muitas sensações. E para certas leituras, especialmente as compartilhadas, isso já é o suficiente.

Título Original: We Used To Live Here ✦ Autor: Marcus Kliewer ✦ Páginas: 320
 Tradução: Lígia Azevedo ✦ Editora: Intrínseca
Livro recebido em parceria com editora

12 de dezembro de 2025

O Ninho do Pássaro é mais um acerto de Shirley Jackson?

Desde que eu li A Assombração da Casa da Colina (que inspirou a série da Netflix, A Maldição da Residência Hill), eu não perco uma oportunidade de ler Shirley Jackson. A autora, que é considerada uma das maiores autoras de horror e mistério norte-americanas, inspirou autores como Stephen King e Neil Gaiman.

Jackson constrói seus horrores sem depender de monstros e fantasmas. Frequentemente, a autora sugere o horror de forma sútil e implícita: nas tensões domésticas, nos medos mais íntimos e nas mentes instáveis. Em minha opinião, Jackson é brilhante e atemporal.

Ela frequentemente explora traumas, repressões e inseguranças. E faz tudo isso de forma quase clínica, especialmente em O Ninho do Pássaro. Outra característica marcante de suas histórias é o questionamento de normas sociais, especialmente as que envolvem expectativas sobre mulheres, família e comportamentos socialmente aceitáveis.

Enfim, essa resenha é uma resenha inversa, porque eu já vou começar dizendo que eu amei O Ninho do Pássaro (assim como amo tudo que já li da Rainha Shirley). E agora sim, vou explicar pra vocês porque esse livro é mais um acerto da autora.

O Ninho do Pássaro nos apresenta à Elizabeth Richmond, uma jovem de 23 anos que mora com a tia, trabalha em um museu e vive seus dias de forma tímida, discreta e quase sem ser notada por ninguém. Elizabeth é, de forma muito direta, insignificante e desinteressante.

No entanto, Elizabeth começa a apresentar alguns problemas de saúde que a levam ao Dr. Victor Wright. A partir disso, a história revela sua verdadeira complexidade: Elizabeth não é uma pessoa tão desinteressante assim, ela tem diferentes personalidades coexiatindo dentro dela

Cada personalidade possui uma identidade própria, características específicas e até modos diferentes de falar e de se comportar. Essa fragmentação se transfere também para a narrativa do livro, com pontos de vista que se alternam e dão ao leitor um panorama mais completo da situação.

Particularmente, eu adorei os capítulos narrados pelo Dr. Wright. Apesar de não simpatizar com a pessoa dele, o olhar clínico que ele traz e sua narrativa ácida e cínica me conquistaram. Mas, é claro que gostar de sua narrativa é diferente de gostar ou de concordar com ele. Victor possui uma preferência nojenta por uma das personalidades de Elizabeth: aquela que é mais doce, simpática e inocente. Óbvio.

As influências da Psicanálise ficam evidentes na história e Shirley Jackson demonstrou amplo conhecimento sobre vários temas, incluindo hipnose, que é usada pelo Dr. para acessar as outras personalidades. A personalidade mais interessante e que até ganha um capítulo sob seu ponto de vista é Betsy. Rebelde, insolente e provocadora, Betsy é aquela que mais disputa pelo controle do corpo/mente de Elizabeth.

Mesmo que Shirley Jackson não tenha sido uma autora diretamente vinculada à Psicanálise, é impossível ignorar como O Ninho do Pássaro dialoga com ideias que estavam em efervescência no século XX, período em que a psicanálise ganhava enorme força cultural. Jackson viveu justamente numa época em que teorias sobre o inconsciente, repressão, dissociação e múltiplas camadas da personalidade estavam no centro dos debates sobre a mente humana e isso fica muito evidente no livro.

A fragmentação de Elizabeth ecoa conceitos psicanalíticos clássicos, como a cisão do eu, os mecanismos de defesa e a manifestação simbólica de traumas reprimidos. Mais do que usar esses elementos como referência teórica, Jackson demonstra, com enorme sensibilidade, a luta interna entre partes dissociadas da psiquê humana.

Para quem gosta de mergulhar na mente de personagens complexos, O Ninho do Pássaro oferece uma leitura intensa e reflexiva sobre identidade, memória, trauma e recuperação. Hoje em dia, o tema das "multiplas personalidades" já está bastante batido. O filme de 2016, Fragmentado, escrito e dirigido por M. Night Shyamalan, talvez seja um dos exemplos de maior sucesso. Mas, pensar que Jackson escreveu sobre isso de forma tão inteligente e clínica em 1954 é surpreendente. Adorei!

Autora: Shirley Jackson ✦ Páginas: 264
Tradução: Débora Landsberg ✦ Editora: Alfaguara
Livro recebido em parceria com editora

4 de dezembro de 2025

Vale a pena investir na nova coletânea de ficção de Lovecraft publicada pela Penguin?

Howard Phillips Lovecraft (1890–1937) foi um escritor norte-americano considerado o grande nome do terror cósmico, um subgênero que ele praticamente criou. A proposta central de sua obra é a de que o medo mais profundo do ser humano é o medo do desconhecido e de tudo aquilo que está além da compreensão humana.

Enquanto autores como Edgar Allan Poe exploravam o terror psicológico e o horror íntimo, Lovecraft ampliou o olhar: seus personagens se deparam com forças cósmicas tão vastas e indiferentes que a simples percepção delas pode levar à loucura. São deuses ancestrais, criaturas abissais e realidades que desafiam a lógica. Entre os contos mais famosos estão O Chamado de Cthulhu, Nas Montanhas da Loucura e A Cor que Caiu do Espaço, histórias que combinam ficção científica, mitologia e filosofia.

Por outro lado, a obra de Lovecraft também carrega o peso de suas visões racistas e elitistas, algo amplamente discutido hoje em dia. Ele viveu em uma época de forte segregação racial nos Estados Unidos e expressou, em cartas e até em alguns textos, ideias preconceituosas. Pra você: dá pra separar o escritor de sua obra?

Diversas editoras já publicaram obras isoladas ou coletâneas com textos do autor. Mais recentemente, foi a vez da Penguin Companhia, uma das minhas editoras favoritas, que publicou um box com a ficção completa de H. P. Lovecraft, e eu achei que seria a oportunidade perfeita para revisitar esse autor que, embora não seja o meu favorito no gênero, é impossível ignorar.

Quando li Lovecraft pela primeira vez, eu não sabia nada sobre as polêmicas em torno dele. Entrei em sua obra completamente às cegas, movida apenas pela curiosidade e pela fama de seu terror cósmico. Eu já era uma grande fã de Edgar Allan Poe e as comparações que constantemente são feitas entre eles me deixaram curiosa. Lembro de ter lido Nas Montanhas da Loucura e ficado absolutamente fascinada pela forma como ele descrevia o desconhecido, já que tudo parecia tão vívido e impossível ao mesmo tempo. Era uma sensação física, uma ansiedade, como se eu realmente estivesse vendo aquelas coisas diante de mim e tentando compreender algo que a mente humana não deveria compreender.

Lovecraft tem esse poder: ele desperta um medo que não é apenas de monstros, mas do imensurável, do inominável, daquilo que existe além dos limites da razão. É o tipo de leitura que faz a gente se sentir pequeno, impotente, como se o universo fosse vasto demais e hostil demais para caber dentro da nossa compreensão. E mesmo que esse medo não seja confortável, ele é profundamente fascinante.

Tive uma experiência parecida lendo A Cor que Caiu do Espaço. É uma história que me deixou completamente confusa, tentando entender o que exatamente estava acontecendo, o que era aquela cor e como algo tão abstrato podia ser tão aterrorizante. Ao mesmo tempo, fiquei muito impressionada com o quanto Lovecraft escreve de forma quase cinematográfica. É uma narrativa estranha, densa, mas visualmente poderosa, que me deixou pensando o quanto seria incrível ver aquilo adaptado para o cinema.

O primeiro conto apresentado nessa coletânea da Penguin, Dagon, já prende e impressiona ao falar sobre um trauma tão profundo e doloroso que faz o narrador desejar a morte. Fica estabelecido ali o tom de toda a leitura que está por vir: sombrio, denso e perturbador. Essa coletânea também me colocou em contato com textos do autor que eu ainda não conhecia como, por exemplo, o pequeno conto denominado O Velho Terrível, que consegue ser surpreendende e assombroso em apenas 4 páginas. Ou ainda, Azathoth, que me surpreendeu pela linguagem poética e pelo belo e inesperado desfecho.

Então, afinal, vale a pena investir na nova coletânea de Lovecraft publicada pela Penguin? Na minha opinião, sim, e muito. Eu sou suspeita pra falar, porque sou realmente fã da editora, mas acho que o trabalho que eles fazem é incomparável. As edições da Penguin são simples, não têm nem orelha, nem aquele acabamento chamativo, mas são bem diagramadas e extremamente confortáveis.

Mas o principal: a tradução e a revisão são de qualidade, o que faz toda a diferença em um autor tão denso quanto Lovecraft. São livros feitos para serem lidos, não apenas exibidos na estante. Claro que existem outras edições mais bonitas, como a da DarkSide, que é lindíssima e até brilha no escuro, mas quando o assunto é qualidade editorial e experiência de leitura, a Penguin continua imbatível. Então, se você quer se aventurar pelo terror cósmico de Lovecraft, essa coletânea é, sem dúvidas, uma ótima escolha.

Autor: H. P. Lovecraft ✦ Páginas: 1640
  Tradução, organização e introdução: Guilherme da Silva Braga ✦ Editora: Penguin Companhia
Livro recebido em parceria com editora
Ajude o blog comprando os livros através do nosso link!

29 de novembro de 2025

Caminho para o Grito, de Jarid Arraes, e a capacidade que só os poemas têm de dizer o indizível


Caminho para o Grito foi meu primeiro contato com a escritora, cordelista e poeta Jarid Arraes. Na coletânea, a autora nos apresenta ao que tem sido descrito como sua obra mais pessoal e corajosa: um livro que aborda memórias de abuso sexual, pedofilia e explora as marcas duradouras desses traumas.

De cara, já me deparei com um texto que fala sobre o quão cotidiano é o estupro. Jarid inicia sua coletânea de poemas com um "não-poema", e justifica:

[...] eu poderia fazer
deste poema
uma denúncia
um manifesto
uma crônica
um campo aberto
mas minha amiga
foi estuprada ontem
minha amiga foi
estuprada
hoje
e nada mais
merece
verso

Jarid escreve com sutileza sobre coisas brutas. Com palavras bonitas, ela fala sobre coisas terríveis. E utiliza-se de sua escrita para falar sobre acontecimentos e sentimentos que são muito difíceis de abordar, "mas pelo menos finalmente estou falando disso".

O livro reúne quase 50 poemas, divididos em três partes, que acompanham as primeiras violências de sua infância às consequências em sua vida adulta. A leitura não é e nem pretende ser fácil. Afinal, os versos revelam imagens cruas que tornam palpável a violência e suas consequências.

As temáticas abordadas pela poeta são dolorosas, incômodas e, por vezes, perturbadoras. Tenho lido muita poesia escrita por mulheres e percebo que quase sempre elas relatam dores profundas, principalmente àquelas ligadas à violência de gênero. Não porque essas autoras gostam de abordar esses temas terríveis, mas porque a poesia oferece um espaço onde o que é traumático pode finalmente existir.

A linguagem poética permite dizer o indizível e transformar memórias brutais em ritmo, sem reduzir a experiência a uma transcrição fria, mas também sem transformá-la em espetáculo.

Desde que existe, a poesia tem sido um espaço onde a humanidade coloca aquilo que não cabe em nenhum outro lugar. Quando uma poeta escreve sobre violência, abuso ou trauma, ela cria um lugar onde a dor pode ser reorganizada, encarada de frente e, às vezes, compartilhada de modo a produzir sentido.

Quando algo é muito traumático, muito íntimo ou muito complexo, o discurso comum, lógico e linear parece não dar conta. Vocês já perceberam isso? Quanto mais complexa é a experiência, mais sentimos a necessidade de "poetizar". Isso acontece porque a poesia rompe com a rigidez do discurso

A poesia usa imagens e metáforas para expressar o que é quase inexpressável. Por isso ela se encaixa tão bem em temas dolorosos: ela não precisa explicar, ela pode mostrar e/ou sugerir.

Meu primeiro contato com Jarid foi certamente memorável. Seus poemas me entristeceram e enraiveceram. Apesar de o livro ter apenas 80 páginas, foi uma leitura densa e poderosa. Recomendo que sua leitura seja feita com cautela e cuidado.

Autora: Jarid Arraes ✦ Páginas: 80
Ilustrações: Gabee Brandão ✦ Editora: Alfaguara
Livro recebido em parceria com editora
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25 de novembro de 2025

Lapso, de Ren Nolasco e Márcio Moreira: Uma HQ belíssima, mas muito confusa


Lapso é uma HQ linda. Visualmente, é de encher os olhos. As cores são vibrantes, intensas, e criam uma atmosfera outonal que combina perfeitamente com o tom misterioso da história. O laranja e o azul dominam as páginas, e juntos criam um contraste que é, ao mesmo tempo, aconchegante e desconcertante. É o tipo de arte que dá vontade de folhear devagar, só pra apreciar cada quadro.

A protagonista é a Verônica, uma bruxa desempregada que vive na companhia de seu bichinho de estimação, Cocota, e que está determinada a alavancar a sua carreira como vidente, inclusive comprando uma estrela. Um dia, Verônica está dirigindo até o mercado e acaba atropelando uma pessoa. A partir daí, tudo começa a se fragmentar. Lapsos de tempo, aguá, uma floresta, um gato preto, um alienígena e uma narrativa que vai se embaralhando de propósito. Verônica está perdida entre tempos e espaços, e o leitor também. A confusão é parte da experiência, já que o roteiro quer que a gente sinta o mesmo desencaixe que ela sente.

Mas, sinceramente, achei Lapso confusa DEMAIS. É aquele tipo de história que só dá pra entender o todo lá no final, e aí vem aquela sensação de “agora até que faz sentido.. eu poderia reler e, dessa vez, eu compreenderia". Mas, foi uma leitura tão cansativa (apesar de curta) que eu não quis ler de novo. A estrutura circular, as repetições de cenas e os saltos temporais criam um efeito interessante, mas também cansativo.

Eu também preciso dizer que, pessoalmente, já tenho uma certa dificuldade com a linguagem das histórias em quadrinhos. Acho que é um formato naturalmente mais abstrato, que exige um tipo de leitura diferente, mais visual e simbólica, e isso, pra mim, sempre foi um desafio. Então, como Lapso já é uma HQ sobre lapsos temporais, essa complexidade toda acabou tornando a experiência ainda mais difícil. Talvez essa sensação de confusão que tive tenha mais a ver comigo do que com a própria obra.

Apesar de toda a confusão temporal, Lapso tem um humor muito gostoso. É uma história leve, com personagens modernos, que falam e agem de um jeito bem jovem, quase adolescente. As interações têm aquele toque irônico e divertido, que quebra o clima misterioso e deixa tudo mais dinâmico. Talvez por isso a HQ funcione especialmente bem com um público mais jovem, que vai se identificar com o ritmo rápido, o humor inteligente e a linguagem contemporânea dos personagens.

Mas Lapso não é só humor e confusão temporal. No fundo, essa HQ é também uma história sobre autodescoberta. Verônica está tentando se encontrar, entender quem ela é e qual caminho quer seguir. Ela trabalha como bruxa vidente e busca se firmar nessa profissão pouco convencional, enquanto lida com a pressão de fazer algo mais “seguro”, como prestar o Enem e seguir uma carreira tradicional. Esse conflito entre o que o mundo espera de você e o que você realmente quer ser é algo muito humano, especialmente na juventude. Por isso, reforço que, na minha opinião, Lapso acaba conversando melhor com quem está nesse processo de se descobrir, de se aceitar e de escolher seu próprio caminho.

Pra mim, Lapso é uma HQ que vale a pena pela estética. A arte é lindíssima, a paleta de cores é deslumbrante, e o clima de mistério prende. É uma leitura rápida, dá pra terminar em 30 ou 40 minutos, mas que deixa a mente girando um pouco depois. Não sei se amei, mas certamente não vou esquecer.

Título Original: Lapso ✦ Autores: Ren Nolasco e Márcio Moreira
Páginas: 144 ✦ Editora: Suma HQ
Livro recebido em parceria com editora