Você sabe o que essas personagens do cinema tem em comum: Sally Hardesty (O Massacre da Serra Elétrica - 1974), Sidney Prescott (Pânico - 1996) e Laurie Strode (Halloween - 1978)? Todas elas são Final Girls ou, em tradução livre, Garotas Finais. As Final Girls são, de forma resumida, as últimas sobreviventes de um massacre.
O arquétipo da Final Girl é especialmente explorado em filmes e franquias de terror slasher, mas também podem ser encontradas em outros gêneros. Exemplos menos óbvios incluem: Dani Ardor (Midsommar - 2019), Ellen Ripley (Alien - O Oitavo Passageiro - 1979) e Wendy Torrance (O Iluminado - 1981). A expressão foi cunhada em 1992 pela pesquisadora e professora de estudos de cinema Carol J. Clover em seu livro Men, Women, and Chain Saws: Gender in the Modern Horror Film.
Mas o que acontece com as Final Girls depois que os filmes terminam? Anos depois. Décadas depois. Quais os efeitos emocionais, práticos e sociais de ser a menina que vivenciou e sobreviveu a um massacre? É isso que Grady Hendrix, com sua criatividade imbatível, vai explorar em O Grupo de Apoio para Garotas Finais, livro originalmente publicado em 2021, mas que chegou recentemente ao Brasil pela Intrínseca.
A história acompanha Lynnette Tarkington, uma sobrevivente traumatizada que participa de um grupo terapêutico formado exclusivamente por Final Girls, como ela. Já no segundo capítulo, enquanto estão reunidas para mais uma sessão, as mulheres descobrem que uma das Final Girls do grupo acaba de morrer. Esse é o ponto inicial de uma história cheia de paranoias, reviravoltas e desdobramentos surpreendentes.
Eu adorei a premissa de O Grupo de Apoio para Garotas Finais e me surpreendi muito com as escolhas que o autor fez. As revelações me surpreenderam e os temas abordados me pegaram completamente desprevenida. O livro foi por um caminho que eu não esperava e abordou assuntos muito interessantes e relevantes que eu não achei que iria encontrar aqui.
O Grupo de Apoio para Garotas Finais fala sobre a cultura True Crime e critica o excessivo interesse das pessoas pelos assassinos, enquanto as vítimas são praticamente esquecidas, ignoradas e se tornam apenas coadjuvantes nas suas histórias de morte.
Mas sei o que estou vendo.
Pregos da casa dos assassinatos cometidos por H. H. Holmes, em Chicago, cascalho do lugar onde Bonnie e Clyde foram baleados, a pistola de calafetagem que Robert Berdella usou para grudar as orelhas de suas vítimas, sapatos usados por Albert Fish, uma mecha do cabelo de Charles Manson, o palhaço de brinquedo de John Wayne Gacy, um cartão natalino de Ted Bundy, um tijolo da casa de Sharon Tate.
Para um certo grupo de pessoas, esses itens são símbolos de status mais valiosos do que um Mercedes Classe S ou uma casa nos Hamptons.
Essa romantização de crimes reais têm sido cada vez mais comum em podcasts, documentários, filmes e séries que contam histórias de assassinatos reais e que, muitas vezes, transformam sofrimento real em entretenimento. O problema começa quando, nessas produções, o assassino frequentemente recebe mais desenvolvimento narrativo do que a vítima.
Há muito tempo, tentei assistir a um dos filmes de Adrienne, Massacre de Verão, mas desisti depois de vinte minutos quando percebi que eles não iriam nos contar sobre nenhuma das vítimas. Lembro-me de como me senti enojada quando vi pessoas com famílias e sonhos serem reduzidas a personagens sem sobrenome sendo dizimadas. É importante lembrar seus nomes completos.
Essa glamourização de assassinos ajuda a explicar, ao menos em partes, um efeito já observado na ciência: alguns assassinos desejam a fama e matam para obtê-la. A cobertura midiatica excessiva alimenta exatamente o que muitos desses indivíduos desejam: "entrar para a história".
Além disso, Hendrix aborda outros temas igualmente importantes, como a naturalização da violência masculina e a onda de ódio contra as mulheres. Um personagem do livro é descrito como um "ativista dos direitos dos homens" e outro como "vítima de uma conspiração feminista descompensada".
Apesar de todos esses temas importantes, eu achei que o livro poderia ter se aprofundado mais nesses debates, para evitar que o assunto ficasse raso. Algumas motivações ficaram um pouco superficiais e alguns personagens não foram tão bem desenvolvidos. Por outro lado, algumas passagens que não foram tão importantes ou interessantes levaram muitas páginas para se desenrolar. Sinto que se existisse um equilibrio melhor entre os assuntos abordados no livro eu poderia ter apreciado mais a leitura.
Mesmo assim, é um livro interessante. Talvez o mais diferente dentre todos que eu já li do autor, pois aqui não estamos vendo terror sobrenatural, mas o terror da vida real, da violência, da misoginia e do ódio gratuito. Os personagens do livro são interessantes e seguem outro padrão do autor: personagens perturbados, paranoicos e que são desacreditados pela maioria das pessoas. Gosto da moralidade cinza das personagens e de como os personagens do Hendrix, no geral, são sempre muito falhos e reais.
As mulheres têm o poder de trazer à vida, então os homens devem se contentar com o poder de levar à morte. E eles se tornaram especialistas no assunto.
Interessante! Valeu a experiência de leitura, mas, para mim, teria sido ainda melhor se fosse mais aprofundado. Eu sinto que o livro quis ser duas coisas ao mesmo tempo: um thriller de ação acelerado e uma crítica cultural séria. Hendrix escolhe o entretenimento quando, na minha opinião, os temas pediam mais reflexão. É uma escolha narrativa e tudo bem, mas acho válido alertar para irem com a expectativa correta. Se você queria profundidade nesses temas, pode se frustrar. Mas se for ler como um thriller de terror com camadas críticas, mas superficiais, funciona melhor.












