Um Lugar Para Nós, de Hayley Kiyoko, é um romance sáfico ambientado em uma Era Vitoriana reimaginada. Nesse universo, relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo são socialmente aceitos e até mesmo o casamento é permitido, embora ainda existam preconceitos e convenções que moldam a vida das pessoas. Essa escolha da autora cria um cenário interessante: em vez de centrar a narrativa na impossibilidade do amor, ela explora outros conflitos, como reputação, expectativas sociais e o choque entre personalidades.
Essa proposta lembra, em certa medida, o que a série Bridgerton faz com a Inglaterra do período regencial. Assim como a adaptação da Netflix reimagina aspectos históricos para criar um universo mais diverso e inclusivo, Hayley Kiyoko flexibiliza as convenções da Era Vitoriana ao naturalizar relacionamentos homoafetivos. A intenção não é reproduzir fielmente a História, mas utilizá-la como pano de fundo para contar uma história de amor em que os principais conflitos não decorrem necessariamente da orientação sexual das protagonistas.
Pra quem não lembra, Hayley Kiyoko é uma cantora, compositora, atriz e escritora norte-americana, conhecida principalmente por seu trabalho voltado à representatividade LGBTQIA+. Tornou-se uma das vozes mais influentes da música pop sáfica, especialmente após o lançamento de Girls Like Girls, canção cujo videoclipe se tornou um grande sucesso e, anos depois, deu origem ao seu romance de estreia. Em Um Lugar Para Nós, Kiyoko retorna à literatura explorando novamente um romance entre mulheres, mas desta vez num cenário de época.
A história acompanha duas protagonistas bastante diferentes. De um lado, Freya, a jovem inglesa mais cobiçada da temporada; do outro, Ivy, uma poeta norte-americana que se muda para a Inglaterra carregando a fama de escrever versos provocativos e sensuais. Em uma sociedade mais conservadora, sua presença desperta curiosidade, escândalo e julgamentos, servindo como ponto de partida para o encontro entre as duas.
O romance se desenvolve a partir desse ponto. As protagonistas têm personalidades fortes, são teimosas e não deixam passar uma oportunidade de trocar provocações. O relacionamento começa com uma energia que lembra um enemies to lovers leve. Elas não chegam a ser inimigas, mas existe uma tensão constante, repleta de ironias e alfinetadas, que torna a interação divertida e ajuda a construir a química entre elas.
No entanto, essa fase meio enemies logo passa e ambas começam a desenvolver sentimentos uma pela outra. Freya nunca havia se interessado por uma mulher antes, então tudo isso é novo para ela. Ivy, por outro lado, é uma mulher sáfica mais experiente. Porém, ela tem seus traumas e receios por conta de um acontecimento em seu passado.
Embora a história seja envolvente e bastante divertida, senti que o livro perde a oportunidade de explorar melhor sua ambientação histórica. Em vários momentos, eu simplesmente esquecia que estava lendo um romance ambientado na Era Vitoriana, já que a época parece servir mais como pano de fundo do que como um elemento que realmente influencia a narrativa. Faltam detalhes que tornem esse cenário mais vivo e marcante.
Nessa Inglaterra Vitoriana reinventada por Kiyoko, mulheres podem se casar com outras mulheres, mas isso lhes tira alguns direitos que são garantidos para as mulheres que se casam com homens. A autora tenta desenvolver esse debate e fazer disso um tema importante ao longo do romance, mas sem muita profundidade. O mais interessante acaba sendo o desenvolvimento do romance mesmo kk'
Em contrapartida, Hayley Kiyoko acerta na construção das protagonistas: ambas são carismáticas, têm personalidades fortes e uma química muito natural. As trocas de provocações, o humor e a evolução gradual do relacionamento são, sem dúvida, os pontos altos da obra e sustentam o interesse do leitor até o fim.
Os diálogos entre Freya e Ivy são outro ponto alto do livro. Elas têm conversas profundas que sustentam o interesse que elas desenvolvem uma pela outra e justificam seus afetos. Elas falam sobre suas infâncias, as coisas que gostam, religião, família e valores. O vínculo que elas desenvolvem é cuidadosamente desenvolvido pela autora, deixando claro que é muito mais do que apenas atração física (embora isso também tenha de sobra).
Os conflitos e obstáculos que elas enfrentam para conseguirem ficar juntas dão complexidade à trama. As trocas de cartas entre elas dão um toque delicado e romântico ao relacionamento e cada pequena interação entre elas é gostosa de acompanhar. É aquele tipo de livro que a gente sabe qual vai ser o final, mas se mantém engajado na leitura por querer saber como. Como elas vão superar as expectativas familiares e os preconceitos sociais?
Além disso, cada uma das personagens lida com suas próprias questões. O livro não gira em torno apenas do romance, mas explora temas individuais das personagens. Gostei especialmente de acompanhar a relação da Ivy com a sua escrita. Ao longo do romance, ela enfrenta um bloqueio criativo e o desenrolar desse problema foi interessante de acompanhar.
No fim, não foi um livro incrível, mas foi uma leitura leve e agradável que me manteve entretida por alguns dias. A escrita da Hayley ainda tem muito a amadurecer, mas já é fluida e envolvente. A premissa do livro é original e interessante e vale a pena a leitura.









