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20 de julho de 2026

Um Lugar Para Nós, de Hayley Kiyoko: romance sáfico na Inglaterra Vitoriana

Um Lugar Para Nós, de Hayley Kiyoko, é um romance sáfico ambientado em uma Era Vitoriana reimaginada. Nesse universo, relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo são socialmente aceitos e até mesmo o casamento é permitido, embora ainda existam preconceitos e convenções que moldam a vida das pessoas. Essa escolha da autora cria um cenário interessante: em vez de centrar a narrativa na impossibilidade do amor, ela explora outros conflitos, como reputação, expectativas sociais e o choque entre personalidades.

Essa proposta lembra, em certa medida, o que a série Bridgerton faz com a Inglaterra do período regencial. Assim como a adaptação da Netflix reimagina aspectos históricos para criar um universo mais diverso e inclusivo, Hayley Kiyoko flexibiliza as convenções da Era Vitoriana ao naturalizar relacionamentos homoafetivos. A intenção não é reproduzir fielmente a História, mas utilizá-la como pano de fundo para contar uma história de amor em que os principais conflitos não decorrem necessariamente da orientação sexual das protagonistas.

Pra quem não lembra, Hayley Kiyoko é uma cantora, compositora, atriz e escritora norte-americana, conhecida principalmente por seu trabalho voltado à representatividade LGBTQIA+. Tornou-se uma das vozes mais influentes da música pop sáfica, especialmente após o lançamento de Girls Like Girls, canção cujo videoclipe se tornou um grande sucesso e, anos depois, deu origem ao seu romance de estreia. Em Um Lugar Para Nós, Kiyoko retorna à literatura explorando novamente um romance entre mulheres, mas desta vez num cenário de época.

A história acompanha duas protagonistas bastante diferentes. De um lado, Freya, a jovem inglesa mais cobiçada da temporada; do outro, Ivy, uma poeta norte-americana que se muda para a Inglaterra carregando a fama de escrever versos provocativos e sensuais. Em uma sociedade mais conservadora, sua presença desperta curiosidade, escândalo e julgamentos, servindo como ponto de partida para o encontro entre as duas.

O romance se desenvolve a partir desse ponto. As protagonistas têm personalidades fortes, são teimosas e não deixam passar uma oportunidade de trocar provocações. O relacionamento começa com uma energia que lembra um enemies to lovers leve. Elas não chegam a ser inimigas, mas existe uma tensão constante, repleta de ironias e alfinetadas, que torna a interação divertida e ajuda a construir a química entre elas.

No entanto, essa fase meio enemies logo passa e ambas começam a desenvolver sentimentos uma pela outra. Freya nunca havia se interessado por uma mulher antes, então tudo isso é novo para ela. Ivy, por outro lado, é uma mulher sáfica mais experiente. Porém, ela tem seus traumas e receios por conta de um acontecimento em seu passado.

Embora a história seja envolvente e bastante divertida, senti que o livro perde a oportunidade de explorar melhor sua ambientação histórica. Em vários momentos, eu simplesmente esquecia que estava lendo um romance ambientado na Era Vitoriana, já que a época parece servir mais como pano de fundo do que como um elemento que realmente influencia a narrativa. Faltam detalhes que tornem esse cenário mais vivo e marcante.

Nessa Inglaterra Vitoriana reinventada por Kiyoko, mulheres podem se casar com outras mulheres, mas isso lhes tira alguns direitos que são garantidos para as mulheres que se casam com homens. A autora tenta desenvolver esse debate e fazer disso um tema importante ao longo do romance, mas sem muita profundidade. O mais interessante acaba sendo o desenvolvimento do romance mesmo kk'

Em contrapartida, Hayley Kiyoko acerta na construção das protagonistas: ambas são carismáticas, têm personalidades fortes e uma química muito natural. As trocas de provocações, o humor e a evolução gradual do relacionamento são, sem dúvida, os pontos altos da obra e sustentam o interesse do leitor até o fim.

Os diálogos entre Freya e Ivy são outro ponto alto do livro. Elas têm conversas profundas que sustentam o interesse que elas desenvolvem uma pela outra e justificam seus afetos. Elas falam sobre suas infâncias, as coisas que gostam, religião, família e valores. O vínculo que elas desenvolvem é cuidadosamente desenvolvido pela autora, deixando claro que é muito mais do que apenas atração física (embora isso também tenha de sobra).

Os conflitos e obstáculos que elas enfrentam para conseguirem ficar juntas dão complexidade à trama. As trocas de cartas entre elas dão um toque delicado e romântico ao relacionamento e cada pequena interação entre elas é gostosa de acompanhar. É aquele tipo de livro que a gente sabe qual vai ser o final, mas se mantém engajado na leitura por querer saber como. Como elas vão superar as expectativas familiares e os preconceitos sociais?

Além disso, cada uma das personagens lida com suas próprias questões. O livro não gira em torno apenas do romance, mas explora temas individuais das personagens. Gostei especialmente de acompanhar a relação da Ivy com a sua escrita. Ao longo do romance, ela enfrenta um bloqueio criativo e o desenrolar desse problema foi interessante de acompanhar.

No fim, não foi um livro incrível, mas foi uma leitura leve e agradável que me manteve entretida por alguns dias. A escrita da Hayley ainda tem muito a amadurecer, mas já é fluida e envolvente. A premissa do livro é original e interessante e vale a pena a leitura.

Título Original: Where There's Room For Us ✦ Autor: Hayley Kiyoko ✦ Páginas: 368
Tradução: Giu Alonso ✦ Editora: Intrínseca
Livro recebido em parceria com editora

10 de julho de 2026

Ninguém Ensina a Gente a Ser Adulto, de Matheus Rocha: reflexões sobre amadurecimento e saúde mental


Ninguém Ensina a Gente a Ser Adulto, do autor Matheus Rocha, é um livro de crônicas e reflexões sobre os desafios da vida adulta. A obra é composta por textos curtos que abordam temas como amadurecimento, sonhos, ansiedade, saúde mental, relacionamentos, carreira, amizade, fracasso, solidão e propósito. São assuntos que costumam acompanhar a transição para a vida adulta e que aparecem aqui acompanhados pelas experiências pessoais do autor.

Um dos aspectos mais interessantes do livro é seu tom intimista. Matheus Rocha compartilha episódios da própria trajetória, fala sobre sua história de vida, suas inseguranças, dificuldades e vulnerabilidades. Ao mesmo tempo, evita transformar a obra em uma simples autobiografia. As experiências pessoais funcionam como ponto de partida para reflexões mais amplas, capazes de dialogar com leitores que possuem outras histórias e contextos.

A narrativa é simples, acessível e de tom acolhedor. Em muitos momentos, o autor se dirige diretamente ao leitor, criando a sensação de uma conversa sincera entre amigos. Essa proximidade é especialmente bem-vinda quando o livro aborda temas delicados como ansiedade, depressão, medicação psiquiátrica, autocuidado e a importância das redes de apoio. Sem recorrer a fórmulas prontas ou discursos excessivamente otimistas, o autor reconhece as dificuldades da vida adulta enquanto oferece uma perspectiva de esperança e crescimento.

Outro ponto positivo está na variedade de temas abordados. Os textos exploram diferentes facetas do amadurecimento: o medo do fracasso, a pressão para ter tudo planejado, as mudanças nos relacionamentos, a dificuldade de construir amizades na vida adulta e a busca por propósito. Além das reflexões, a obra também se destaca por suas frases marcantes. Diversos trechos convidam o leitor a pausar a leitura e pensar sobre a própria trajetória, tornando a experiência bastante pessoal.

É o tipo de livro que pode ser lido aos poucos, em pequenas doses, permitindo que cada texto seja absorvido com calma. Mas também é o tipo de livro que dá pra ler rapidamente, de uma única vez (como eu fiz kk'). Era uma noite de quinta-feira qualquer, tomei um banho premium e sentei pra ler, enquanto fazia marcações e anotações com caneta (algo que o próprio autor encoraja no início do livro). Foi como um abraço apertado antes de dormir. Aquela sensação de "Não sou só eu que me sinto assim".

Ninguém Ensina a Gente a Ser Adulto não pretende oferecer respostas definitivas para os desafios da vida. Sua proposta é mais humilde e, justamente por isso, mais eficaz: lembrar ao leitor que crescer envolve dúvidas, tropeços e recomeços constantes. Matheus usa suas próprias experiências e percepções para exemplificar suas reflexões, enquanto expõe fragilidades e cria conexão genuína com o leitor.

Com uma escrita afetuosa e reflexões honestas, Matheus Rocha constrói uma obra que pode encontrar eco especialmente em jovens adultos, mas que também tem potencial para tocar leitores de diferentes idades que estejam atravessando momentos de mudança, incerteza ou autoconhecimento. Afinal, amadurecimento é um processo que nunca termina.

Autor: Matheus Rocha ✦ Páginas: 224 ✦ Editora: Intrínseca
Livro recebido em parceria com editora
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29 de junho de 2026

É Tempo de Morangos, de Bruna Martiolli: um livro sobre como a literatura atravessa nossas vidas

Já faz algum tempo que acompanho a Bruna Martiolli no Instagram. A forma apaixonada como ela fala de literatura e, principalmente, de Clarice Lispector, sempre me encantou. Enquanto para muitos a literatura pertence aos excluídos e introvertidos, a Bruna sempre fez parecer que literatura é a coisa mais descolada que existe. Quando soube que ela lançaria um livro, fiquei imediatamente interessada. Ouvir a Bruna falar é um deleite, sua bagagem literária é enorme e eu fiquei curiosa sobre o que ela ainda tinha a nos contar, dessa vez de forma escrita.

É Tempo de Morangos é principalmente sobre a Bruna. Mas também é principalmente sobre livros. É sobre como os livros atravessam a Bruna e sobre como a Bruna caminha pelos livros. Ao longo dos capítulos, Bruna revela detalhes íntimos e sensíveis sobre sua vida pessoal, sua família, seus relacionamentos, seus valores e seus pensamentos. E, enquanto isso, entrelaça a sua história com as histórias dos livros que leu.

Terei sempre de ir eu porque há um impulso em mim que não cessa, um movimento que não aceita permanência por conveniência, que não compactua com o conformismo de conhecido no sofrimento.

Em uma narrativa fluida e agradável, Bruna cita livros e mais livros de forma muito natural, apresentando ao leitor o que cada livro lhe ensinou, ou em que momento de sua vida certo livro foi importante. Bruna conta sobre seu ensino médio enquanto fala sobre A Hora da Estrela, conta sobre sua mudança para Portugal enquanto cita Fernando Pessoa, conta sobre a faculdade e sobre sua formação enquanto relembra Capitães de Areia.

Invejo Caeiro por viver o presente e aceitar o que é visível, por rejeitar a ansiedade de querer saber o que vem depois ou o que se passa na vida dos outros.

É nítido que os livros são parte essencial da vida da Bruna e não só isso: é nítido também a clareza e a consciência que ela tem sobre isso. Ela consegue dizer com aparente facilidade o que cada livro ou autor lhe ensinou, como se fosse capaz de tirar algo profundo e significativo de cada leitura que faz.

Ao longo da leitura, me senti conversando com uma amiga, ouvindo-a me contar sobre sua vida numa conversa às vezes divertida, às vezes melancólica. Os trechos em que Bruna menciona a avó foram especialmente emocionantes para mim. Mas cabe mencionar também a relação linda que a Bruna tem com o pai. Relação essa que eu já admirava pelo Instagram e só passei a admirar ainda mais com a leitura do seu livro.

A cultura brasileira é um banquete infinito, impossível de se consumir de uma vez. Ela se multiplica a cada leitura, em cada sala de aula, em cada aluno, em cada gesto de quem insiste em ensinar, apesar de todas as dificuldades. A poesia é nosso alimento e nossa sobrevivência.

O interessante dessa leitura é que a Bruna põe tanto de si e é tão transparente que eu consegui, inclusive, identificar pontos em que eu discordo dela. Alguns de nossos pensamentos e formas de ver a vida são completamente opostas e, mesmo assim, eu a compreendo e respeito da mesma forma que compreendo e respeito uma amiga que não pensa como eu em tudo.

Tirei muitas boas lições dessa leitura, mas talvez a principal delas seja sobre a forma como a Bruna vê o envelhecimento. Eu sempre fui do time que tem medo de envelhecer e a visão da Bruna sobre o envelhecimento me fez repensar muitas certezas que eu tinha. Certamente é um ponto de vista que eu vou elaborar dentro de mim e refletir por bastante tempo.

Se tenho algo a oferecer ao mundo, é isto: uma vida entre palavras e a certeza de que há maturidades infinitamente mais libertadoras do que qualquer juventude idealizada.

É Tempo de Morangos pode ser uma leitura muito rápida, principalmente porque a Bruna escreve de forma muito agradável e é fácil passar várias páginas sem nem perceber. Mas minha experiência foi diferente: essa leitura me acompanhou ao longo de uma semana. Uma semana bem difícil, diga-se de passagem. Li um pouco todas as noites, com uma caneta em mãos, marcando minhas passagens preferidas e anotando indicações de livros. Terminei a leitura me sentindo genuinamente feliz e com uma enorme lista de livros que quero ler.

Literatura não é mero escapismo, nem entretenimento barato, mas também não deve ser enclausurada entre os muros acadêmicos. Ela vive no entre. Pode ser prazer, pode ser reflexão, pode ser denúncia, ou tudo isso junto.

Autora: Bruna Martiolli ✦ Páginas: 192 ✦ Editora: Intrínseca
Livro recebido em parceria com editora
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10 de junho de 2026

Metade da Idade Dele: mais um livro polêmico de Jennette McCurdy

Jennette McCurdy já se tornou uma autora cercada por expectativa. Depois da repercussão de Estou Feliz que Minha Mãe Morreu, seu livro autobiográfico que chamou atenção pelo título provocador, ficou claro que ela não busca escrever histórias confortáveis. Por isso, ao iniciar a leitura de seu novo livro, Metade da Idade Dele, eu já esperava uma experiência incômoda e chocante.

O próprio título já carrega provocação. Metade da Idade Dele sugere imediatamente uma relação marcada por desigualdade de idade, poder e maturidade, uma história sobre pedofilia. É um tema delicado, apesar de já bastante explorado em diferentes obras, de diferentes formatos, então comecei a leitura curiosa para entender o que Jennette traria de novo para essa discussão.

Não é meu primeiro contato com narrativas desse tipo. Já li Lolita, talvez a obra mais famosa quando se fala sobre esse assunto, e também Minha Sombria Vanessa, que atualiza essa discussão para tempos mais recentes. Em comum, essas histórias costumam explorar manipulação emocional, vulnerabilidade e a falsa sensação de consentimento. Por isso, meu interesse aqui estava em descobrir se haveria uma nova perspectiva, algo que ainda não tivesse sido explorado (o que é difícil, se levarmos em consideração a quantidade de histórias que já explorou esse tema, entre livros, filmes, séries, músicas e novelas).

Desde as primeiras páginas, Jennette mostra que continua fiel ao estilo direto e provocador. O livro abre com uma cena bem explícita e já mostra que não vai usar meias palavras, nem tentar amenizar o impacto de nada. A linguagem é franca e a autora parece determinada a colocar o leitor em territórios moralmente desconfortáveis.

A protagonista, Waldo, tem 17 anos e desenvolve um inexplicável interesse pelo seu novo professor. Inexplicável porque Korgy não é bonito ou atraente, além de ser muito mais velho, casado e pai de família. Bem distante da imagem idealizada de um galã. A atração dela não parece nascer de um encanto superficial ou estético, mas do reconhecimento de fragilidades. Ela o percebe como alguém quebrado, assim como também se sente. Waldo enxerga nele alguém que vai conseguir entendê-la.

Ao longo da narrativa, conhecemos melhor essa adolescente. O pai é ausente, a mãe vive relacionamentos conturbados, a situação financeira da família é instável e ela tenta aliviar vazios emocionais por meio de compras compulsivas. Esses elementos ajudam a construir uma personagem marcada por carência, impulsividade e busca constante por pertencimento. Ou seja, a vítima ideal de um pedófilo.

Um dos pontos centrais do livro, e também algo recorrente em obras dessa temática, é a ambiguidade. Em vários momentos, parece que é a jovem quem conduz a aproximação, quem insiste e quem de fato deseja ultrapassar os limites. O adulto, por sua vez, verbaliza que aquilo seria inadequado, mas ainda assim permanece envolvido na dinâmica. Nesse sentido, Metade da Idade Dele não traz, necessariamente, nada de novo, já que muitos dos livros sobre pedofilia são assim: traduzindo bem a manipulação sútil e quase imperceptível que acontece nesses casos. Um jeito do homem poder dizer: "Mas foi ela que quis, que insistiu, que provocou". Waldo tem uma personalidade forte, provocadora e com forte apelo sexual. O que contribui para a narrativa de que foi ela que escolheu isso.

Esse tipo de construção torna o debate complexo, porque pode gerar a impressão equivocada de que a responsabilidade seria dividida. No entanto, quando existe diferença clara de idade, maturidade e posição de autoridade, a responsabilidade ética continua sendo do adulto. Afinal, aos 17 anos o cérebro humano nem sequer terminou de se formar.

Apesar de ser provocador e abordar um tema espinhoso com franqueza, Metade da Idade Dele não me apresentou algo realmente novo em relação a outras obras que já exploraram esse mesmo conflito. A dinâmica da adolescente vulnerável e do adulto que falha em ocupar seu papel responsável já apareceu diversas vezes na literatura. Todo o roteiro se repete aqui: ele dizendo pra ela que ela é muito madura pra idade dela e blá-blá-blá.

Foi uma leitura super rápida, dinâmica e fluida. A Jannette escreve de forma muito direta, sem floreios e o livro é curto. Facilmente, uma leitura que dá pra fazer de uma vez só, em poucas horas. Eu gostei muito do livro, ainda que, como eu disse anteriormente, ele não tenha me apresentado nada de novo dentro desse assunto. Mas eu fiquei envolvida e curiosa pra saber o final, passando as páginas rapidamente.

A história me intrigou por completo. Eu queria saber não só o que aconteceria com Waldo e Korgy, mas também o que aconteceria com a mãe e com a amiga de Waldo e com a esposa do Korgy. E eu gostei de tudo, do começo ao fim. Devorei o livro e, quando terminei, imediatamente senti falta da Waldo. Se tivesse uma sequência eu leria com certeza. No fim, eu percebi que esse não é um livro sobre pedofilia, mas um livro sobre solidão. E sobre todas as vulnerabilidades de uma pessoa solitária.

Título Original: Half His Age ✦ Autor: Jennette McCurdy ✦ Páginas: 256
Tradução: Carolina Simmer ✦ Editora: Intrínseca
Livro recebido em parceria com editora
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2 de junho de 2026

Um Amor de Despedida, de Seo Eun-chae: livro sul-coreano que virou série chega ao Brasil

Um Amor de Despedida, da escritora sul-coreana Seo Eun-chae, é uma leitura rápida, fluida e envolvente, daquelas que podem ser concluídas em um ou dois dias. A narrativa é dinâmica, construída com muitos diálogos e capítulos curtos que alternam passado e presente e mudam de ponto de vista e de estilo narrativo, o que imprime movimento à trama e mantém a curiosidade ativa do começo ao fim.

A narrativa de Um Amor de Despedida não se detém em descrições de cenários, nem se aprofunda em sentimentos, intenções ou na construção psicológica dos personagens. Em vez disso, o livro acompanha e descreve os acontecimentos de forma mais direta e objetiva. Essa característica parece ser algo comum em livros sul-coreanos. Ao menos foi o que notei naqueles que eu já tive contato: narrativas mais contidas, menos voltadas para longas elaborações internas e mais centradas no desenrolar dos fatos. E é no desenrolar dos fatos, em si, que a gente conhece os personagens. Não pelos seus sentimentos, mas pelos seus comportamentos. Não por seus pensamentos, mas por suas escolhas. 

Essa escolha sempre me causa uma sensação de superficialidade inicialmente, especialmente porque eu tendo a preferir narrativas mais densas e introspectivas. Ao mesmo tempo, essa objetividade contribui para o ritmo ágil do livro. E, de qualquer forma, aos poucos e com o passar das páginas, eu fui conseguindo me conectar aos personagens, compreendendo suas emoções e motivações.

Especialmente a protagonista, Heewan, despertou em mim empatia e compreensão. Ela se culpa pela morte do amigo de infância, que faleceu em um acidente de carro tentando salvá-la. A mãe do menino a culpou na época e ela absorveu essa responsabilidade e carregou essa culpa para a vida adulta.

Até que, num dia qualquer, seu amigo reaparece, mais velho, como se nunca tivesse morrido, mas continuasse vivo e vivendo uma vida normal, envelhecendo normalmente. A partir daí, a história segue por caminhos intrigantes e inesperados e conseguiu me manter curiosa e engajada por boas páginas.

No entanto, Um Amor de Despedida parece vários livros em um. Na verdade, vários retalhos. A história da Heewan e seu amigo, Ramwoo, vai até cerca de 30% do livro. Depois disso, o livro alterna pontos de vista, volta ao passado, contextualiza outras coisas e se aprofunda em outros personagens. Conhecemos, por exemplo, a história da mãe do Ramwoo e eu confesso que esses paralelos não foram tão interessantes pra mim. Eu ficava me perguntando qual era a utilidade de estarmos conhecendo mais profundamente esses outros personagens. Não que não tenha sido interessante. Até foi, mas um interessante sem propósito. 

Uma das coisas que mais me chamou atenção no livro foi a forma como ele é narrado no início (quando estamos no ponto de vista da Heewan). A narrativa é em primeira pessoa, mas a protagonista/narradora se refere ao seu amigo, Ramwoo, como "você", como se todo o livro fosse escrito para ele, direcionado para ele. Isso, na minha opinião, deixou a narrativa muito mais melancólica e poética.

Você foi atropelado. Tentando me salvar. Ao chegar ao hospital pálida que nem um fantasma, sua mãe não quis nem olhar na minha cara. Não pude ver você. Voltei para casa. Para a casa onde você não estava mais. Era tarde da noite, e eu ouvi soluços vindo da sala. Prendendo a respiração, me recostei à porta para escutar.

Esse modo de narrar produz um efeito emocional bem particular. Embora a narrativa seja objetiva, o uso do “você” traz muita proximidade afetiva. Há algo de confessional, parecendo uma carta. Eu, que amo romances epistolares, tão escassos hoje em dia, fiquei genuinamente encantada com essa narrativa. Esse recurso me parece especialmente interessante porque aproxima o leitor de uma intimidade emocional sem precisar recorrer a longas explicações psicológicas. Gostaria que o livro tivesse se mantido assim até o fim ao invés de ir para outros pontos de vista e outros estilos narrativos. 

No fim, todas essas histórias formam um todo coeso e interessante, mas desigual em impacto. O livro tem uma divisão bem clara em três partes. Pra mim, o primeiro terço do livro é a melhor parte. Em seguida, o último terço, quando voltamos para a Heewan e Ramwoo. O meio, quando conhecemos outras histórias de outros personagens, foi menos envolvente para mim.

Um Amor de Despedida é uma narrativa fantástica, que mescla realismo mágico e vida real. Alguns plot twists são bem interessantes, principalmente quando entendemos porque o Ramwoo aparece para a Heewan como se nunca tivesse morrido. Foi emocionante e triste.

Gostei da experiência. Foi um livro que prendeu minha curiosidade. Eu comecei num dia e terminei no dia seguinte e, entre um dia e outro, eu me peguei pensando na história, ansiando pelo momento em que eu poderia parar para ler e descobrir o que aconteceria. Recomendo! E vale mencionar que esse livro já foi adaptado para série sob o título Way Back Love.


Título Original: Naega Jukgi Iljuil Jeon ✦ Autora: Seo Eun-chae ✦ Páginas: 208
Tradução: Núbia Tropéia ✦ Editora: Intrínseca
Livro recebido em parceria com editora
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11 de maio de 2026

O Grupo de Apoio para Garotas Finais, de Grady Hendrix, e a cultura True Crime

Você sabe o que essas personagens do cinema tem em comum: Sally Hardesty (O Massacre da Serra Elétrica - 1974), Sidney Prescott (Pânico - 1996) e Laurie Strode (Halloween - 1978)? Todas elas são Final Girls ou, em tradução livre, Garotas Finais. As Final Girls são, de forma resumida, as últimas sobreviventes de um massacre.

O arquétipo da Final Girl é especialmente explorado em filmes e franquias de terror slasher, mas também podem ser encontradas em outros gêneros. Exemplos menos óbvios incluem: Dani Ardor (Midsommar - 2019), Ellen Ripley (Alien - O Oitavo Passageiro - 1979) e Wendy Torrance (O Iluminado - 1981). A expressão foi cunhada em 1992 pela pesquisadora e professora de estudos de cinema Carol J. Clover em seu livro Men, Women, and Chain Saws: Gender in the Modern Horror Film

Mas o que acontece com as Final Girls depois que os filmes terminam? Anos depois. Décadas depois. Quais os efeitos emocionais, práticos e sociais de ser a menina que vivenciou e sobreviveu a um massacre? É isso que Grady Hendrix, com sua criatividade imbatível, vai explorar em O Grupo de Apoio para Garotas Finais, livro originalmente publicado em 2021, mas que chegou recentemente ao Brasil pela Intrínseca. 

A história acompanha Lynnette Tarkington, uma sobrevivente traumatizada que participa de um grupo terapêutico formado exclusivamente por Final Girls, como ela. Já no segundo capítulo, enquanto estão reunidas para mais uma sessão, as mulheres descobrem que uma das Final Girls do grupo acaba de morrer. Esse é o ponto inicial de uma história cheia de paranoias, reviravoltas e desdobramentos surpreendentes.

Eu adorei a premissa de O Grupo de Apoio para Garotas Finais e me surpreendi muito com as escolhas que o autor fez. As revelações me surpreenderam e os temas abordados me pegaram completamente desprevenida. O livro foi por um caminho que eu não esperava e abordou assuntos muito interessantes e relevantes que eu não achei que iria encontrar aqui.

O Grupo de Apoio para Garotas Finais fala sobre a cultura True Crime e critica o excessivo interesse das pessoas pelos assassinos, enquanto as vítimas são praticamente esquecidas, ignoradas e se tornam apenas coadjuvantes nas suas histórias de morte.

Mas sei o que estou vendo.
Pregos da casa dos assassinatos cometidos por H. H. Holmes, em Chicago, cascalho do lugar onde Bonnie e Clyde foram baleados, a pistola de calafetagem que Robert Berdella usou para grudar as orelhas de suas vítimas, sapatos usados por Albert Fish, uma mecha do cabelo de Charles Manson, o palhaço de brinquedo de John Wayne Gacy, um cartão natalino de Ted Bundy, um tijolo da casa de Sharon Tate.
Para um certo grupo de pessoas, esses itens são símbolos de status mais valiosos do que um Mercedes Classe S ou uma casa nos Hamptons.

Essa romantização de crimes reais têm sido cada vez mais comum em podcasts, documentários, filmes e séries que contam histórias de assassinatos reais e que, muitas vezes, transformam sofrimento real em entretenimento. O problema começa quando, nessas produções, o assassino frequentemente recebe mais desenvolvimento narrativo do que a vítima.

Há muito tempo, tentei assistir a um dos filmes de Adrienne, Massacre de Verão, mas desisti depois de vinte minutos quando percebi que eles não iriam nos contar sobre nenhuma das vítimas. Lembro-me de como me senti enojada quando vi pessoas com famílias e sonhos serem reduzidas a personagens sem sobrenome sendo dizimadas. É importante lembrar seus nomes completos.

Essa glamourização de assassinos ajuda a explicar, ao menos em partes, um efeito já observado na ciência: alguns assassinos desejam a fama e matam para obtê-la. A cobertura midiatica excessiva alimenta exatamente o que muitos desses indivíduos desejam: "entrar para a história".

Além disso, Hendrix aborda outros temas igualmente importantes, como a naturalização da violência masculina e a onda de ódio contra as mulheres. Um personagem do livro é descrito como um "ativista dos direitos dos homens" e outro como "vítima de uma conspiração feminista descompensada".

Apesar de todos esses temas importantes, eu achei que o livro poderia ter se aprofundado mais nesses debates, para evitar que o assunto ficasse raso. Algumas motivações ficaram um pouco superficiais e alguns personagens não foram tão bem desenvolvidos. Por outro lado, algumas passagens que não foram tão importantes ou interessantes levaram muitas páginas para se desenrolar. Sinto que se existisse um equilibrio melhor entre os assuntos abordados no livro eu poderia ter apreciado mais a leitura.

Mesmo assim, é um livro interessante. Talvez o mais diferente dentre todos que eu já li do autor, pois aqui não estamos vendo terror sobrenatural, mas o terror da vida real, da violência, da misoginia e do ódio gratuito. Os personagens do livro são interessantes e seguem outro padrão do autor: personagens perturbados, paranoicos e que são desacreditados pela maioria das pessoas. Gosto da moralidade cinza das personagens e de como os personagens do Hendrix, no geral, são sempre muito falhos e reais.

As mulheres têm o poder de trazer à vida, então os homens devem se contentar com o poder de levar à morte. E eles se tornaram especialistas no assunto.

Interessante! Valeu a experiência de leitura, mas, para mim, teria sido ainda melhor se fosse mais aprofundado. Eu sinto que o livro quis ser duas coisas ao mesmo tempo: um thriller de ação acelerado e uma crítica cultural séria. Hendrix escolhe o entretenimento quando, na minha opinião, os temas pediam mais reflexão. É uma escolha narrativa e tudo bem, mas acho válido alertar para irem com a expectativa correta. Se você queria profundidade nesses temas, pode se frustrar. Mas se for ler como um thriller de terror com camadas críticas, mas superficiais, funciona melhor.

Título Original: The Final Girl Support Group ✦ Autor: Grady Hendrix ✦ Páginas: 368
Tradução: Flora Pinheiro ✦ Editora: Intrínseca
Livro recebido em parceria com editora