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11 de setembro de 2026

Nada é Por Acaso, de Lynn Painter: um romance proibido com gatos, café e muita química


Eu não sou uma leitora assídua de romances. No geral, prefiro outros gêneros literários, e quando pego um romance nas mãos costuma ser em momentos bem específicos, quando quero algo leve, descontraído e rápido de ler, sem grandes compromissos emocionais. E foi exatamente isso que Nada é por Acaso me entregou, e entregou muito bem.

Li esse livro logo depois de terminar um thriller bastante tenso. E a mudança de clima foi um verdadeiro respiro. A leitura é ágil, fluida e divertida do começo ao fim, o tipo de livro que você devora rapidamente porque, além da linguagem super simples, o enredo é muito envolvente.

A história acompanha Izzy, que acaba de conquistar o emprego dos sonhos. No entanto, o seu primeiro dia de trabalho já começa do jeito errado: atrasada e desesperada por um café, ela ouve a atendente da cafeteria chamar repetidas vezes por uma tal de "Amy", que nunca aparece para buscar o pedido. No desespero de não chegar atrasada logo no seu primeiro dia, Izzy pega a bebida da tal Amy como se fosse dela.

Com o café em mãos, ela esbarra no homem mais atraente que já viu na vida (e o clichê "topei contra uma parede, mas na verdade era o peitoral firme dele" acontece kkkk'). Izzy derrama a bebida nele, se desculpa, tenta limpar a camisa chique dele com guardanapos e papo entre os dois flui com uma química imediata. Izzy é divertidíssima e faz comentários engraçados e descontraídos que fizeram eu me encantar por ela imediatamente. Bom, não só eu, como também o homem em quem ela derrubou o café, Blake. Mas o desfecho do encontro guarda uma reviravolta e tanto: ele é o novo chefe dela.

A partir daí, Lynn Painter constrói uma relação cheia de camadas, que passa por hostilidade (ele descobre que ela roubou a bebida de outra pessoa, e ele é alguém particularmente intolerante com desonestidade), tentativas frustradas de manter tudo apenas na amizade e uma tensão que cresce a cada capítulo, com os dois plenamente conscientes da atração mútua.

Um dos maiores acertos do livro é a construção da Izzy. Ela é engraçadíssima, tem sacadas inesperadas, comentários espontâneos e um senso de humor tão único que boa parte da graça da narrativa está simplesmente em acompanhar como a cabeça dela funciona.

Já Blake, longe de ter o mesmo brilho espontâneo da Izzy, também conquista à sua maneira. Ele é disciplinado, workaholic e extremamente responsável, o contraponto perfeito para o caos organizado que é a protagonista. E é justamente esse contraste que torna a dupla tão gostosa de acompanhar: ela desorganizada e cheia de energia, ele centrado e comedido, os dois se equilibrando e se provocando o tempo todo.

Não à toa, a dinâmica entre eles me lembrou muito Lorelai e Luke, de Gilmore Girls. Aliás, a própria Izzy, com seu raciocínio rápido, humor ácido e uma certa desordem charmosa, me lembrou bastante a Lorelai Gilmore. Outro detalhe fofo que reforça a conexão imediata entre os dois é que ambos têm gatos, e é curioso como esse detalhe aparentemente pequeno vai criando um vínculo genuíno entre eles ao longo da trama, para além da atração física.

Outro ponto que gostei bastante foi a segurança emocional dos dois protagonistas. Ambos sabem que são atraentes e não há espaço para aquela insegurança crônica ou sentimento de inferioridade que às vezes cansa em romances do gênero. A química entre eles não fica presa a dramas de baixa autoestima e as interações entre eles são cheias de segurança e descontração. 

E falando em interação: as trocas de mensagem entre os personagens, recurso que normalmente não me agrada em livros, aqui funcionaram muito bem. Os diálogos por celular têm o mesmo timing e a mesma leveza das cenas presenciais, e ajudam a manter o ritmo ágil da narrativa mesmo nos momentos em que os personagens estão fisicamente separados.

Torcer por esse casal foi uma delícia. Eu me envolvi com o enredo logo nas primeiras páginas, me diverti ao longo de todo o livro e adorei a química e as interações entre eles. Se você está atrás de uma leitura leve, engraçada e sem grandes exigências emocionais, o tipo perfeito para intercalar com leituras mais pesadas ou simplesmente para descansar a cabeça, Nada é por Acaso cumpre exatamente essa demanda. Recomendo especialmente para quem gosta de personagens carismáticos, diálogos afiados e aquela tensão gostosa de ansiar pelo momento em que os personagens vão finalmente ficar juntos.

Título Original: Accidentally Amy ✦ Autora: Lynn Painter ✦ Páginas: 304
Tradução: Alessandra Cavalli Esteche ✦ Editora: Intrínseca
Livro recebido em parceria com editora
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17 de agosto de 2026

Um Lugar Ensolarado Para Gente Sombria, de Mariana Henriquez: para lembrar que a maldade humana é muito mais assustadora do que monstros e fantasmas


Eu não sou uma grande apreciadora de contos. No geral, prefiro as histórias mais longas, as novelas, os romances e até mesmo os calhamaços. Porém, sempre que Mariana Enriquez lança uma nova coletânea de contos, eu imediatamente me interesso. Normalmente, meu problema com contos é que eu demoro pra me envolver com a história e, quando começo a me envolver, o conto já está no fim. Mas Mariana escreve de forma tão imersiva que nas primeiras linhas eu já estou mergulhada no enredo, genuinamente interessada e emocionalmente envolvida.

Em Um Lugar Ensolarado Para Gente Sombria (título incrível, aliás), Mariana explora os terrores sobrenaturais e os terrores reais de forma magistral. A autora mistura elementos sobrenaturais, como fantasmas e maldições, com os horrores da vida real, como violência, criminalidade e abandono, nos fazendo refletir sobre o que é realmente mais assustador. É cruel e inteligente a forma como Mariana joga na nossa cara que pessoas podem ser muito piores do que assombrações.

Eu gostei de todos os contos, sem exceção, mas claro que teve aqueles que me agradaram mais e aqueles que me agradaram menos, como normalmente acontece em coletâneas. O conto que abre a coletânea já consegue mostrar perfeitamente o que podemos esperar do resto de livro. Meus Mortos Tristes é sobre uma mulher que vê gente morta. Mais especificamente, as pessoas que morreram no bairro onde ela mora, um bairro com muita criminalidade, onde pessoas são frequentemente assassinadas e onde a violência já se tornou algo cotidiano. O que é pior: encontrar um fantasma a noite a caminho de casa ou com um assaltante armado?

No segundo conto, Os Pássaros da Noite, nossa narradora é uma garota com uma doença estranha cujo principal sintoma é a pele apodrecer. Esse é um dos contos mais perturbadores da coletânea, além de abordar temas bastante bizarros e estranhos, que me fizeram elaborar algumas teorias.

A Desgraça na Cara, terceiro conto do livro, é uma história triste sobre violência sexual, depressão, alcoolismo e suicídio. Uma narrativa melancólica sobre o que herdamos de nossos pais e sobre ressentimentos familiares. Julie, a quarta história da coletânea, foi uma das mais envolventes pra mim. Lembro de chegar ao fim e pensar "mas já?". No conto, uma garota afirma ter relações sexuais com fantasmas, enquanto sua família a rejeita, repudia e a trata como louca. Eu facilmente leria um livro de 400 páginas dessa história.

O quinto conto da coletânea, Metamorfose, é sobre uma mulher que precisa retirar um mioma uterino e que toma uma decisão estranha e insana após isso. Esse conto me deu arrepios. O sexto conto é o que dá título ao livro, Um Lugar Ensolarado Para Gente Sombria, e é sobre uma jornalista de luto que vai investigar a morte suspeita de uma jovem em um hotel famoso. Em seguida, Os Hinos das Hienas, é sobre um casal que decide entrar num castelo abandonado e acaba presenciando acontecimentos estranhos e sombrios.

Diferentes Cores Feitas de Lágrimas é o oitavo conto e conta um episódio vivido por mulheres que trabalham em um tipo de brechó de luxo. Um dia, elas recebem uma oferta irrecusável de comprar vários vestidos luxuosos sem imaginar o que acontecerá a seguir. A Mulher que Sofre é sobre uma mulher que começa a receber mensagens por engano de uma mulher que acredita estar se correspondendo com sua amiga que tem câncer.

Cemitério de Geladeiras fala sobre a culpa e as consequências de um ato terrível praticado na infância. Esse conto me fez sentir ansiedade e me lembrou Crime e Castigo do Dostoiévski. Um Artista Local é o penúltimo conto da coletânea e narra a viagem de um casal para um pequeno e assustador povoado. Por fim, fechando a coletânea, o conto Olhos Negros é sobre uma mulher que trabalha para uma ONG que distribui alimento para pessoas em situação de rua. Um dia, duas crianças de olhos negros aparecem para ela com um estranho pedido.

Os quatro primeiros contos foram os meus preferidos. Cemitério de Geladeiras também é muito bom. Os demais estão longe de serem ruins, mas me conquistaram menos. Mariana Enriquez é incrível em sua habilidade de perturbar o leitor. Suas histórias incomodam, revoltam e dão asco. Apesar dos elementos sobrenaturais, são histórias que refletem principalmente a maldade humana. Os pequenos e os grandes atos de crueldade que as pessoas são capazes de fazer.

A forma como a autora narra suas histórias também merece ser comentada. Ao longo da leitura dos contos era como se eu pudesse sentir os cheiros, alguns trechos me arrepiavam a nuca ou me faziam torcer o nariz. Sua escrita, além de fluida, é muito sensorial e visceral. Mariana Enriquez certamente merece todo o reconhecimento que vem conquistando.

Título Original: Un Lugar Soleado Para Gente Sombría ✦ Autora: Mariana Henriquez
Páginas: 224 ✦ Tradução: Elisa Menezes ✦ Editora: Intrínseca
Livro recebido em parceria com editora
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20 de julho de 2026

Um Lugar Para Nós, de Hayley Kiyoko: romance sáfico na Inglaterra Vitoriana

Um Lugar Para Nós, de Hayley Kiyoko, é um romance sáfico ambientado em uma Era Vitoriana reimaginada. Nesse universo, relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo são socialmente aceitos e até mesmo o casamento é permitido, embora ainda existam preconceitos e convenções que moldam a vida das pessoas. Essa escolha da autora cria um cenário interessante: em vez de centrar a narrativa na impossibilidade do amor, ela explora outros conflitos, como reputação, expectativas sociais e o choque entre personalidades.

Essa proposta lembra, em certa medida, o que a série Bridgerton faz com a Inglaterra do período regencial. Assim como a adaptação da Netflix reimagina aspectos históricos para criar um universo mais diverso e inclusivo, Hayley Kiyoko flexibiliza as convenções da Era Vitoriana ao naturalizar relacionamentos homoafetivos. A intenção não é reproduzir fielmente a História, mas utilizá-la como pano de fundo para contar uma história de amor em que os principais conflitos não decorrem necessariamente da orientação sexual das protagonistas.

Pra quem não lembra, Hayley Kiyoko é uma cantora, compositora, atriz e escritora norte-americana, conhecida principalmente por seu trabalho voltado à representatividade LGBTQIA+. Tornou-se uma das vozes mais influentes da música pop sáfica, especialmente após o lançamento de Girls Like Girls, canção cujo videoclipe se tornou um grande sucesso e, anos depois, deu origem ao seu romance de estreia. Em Um Lugar Para Nós, Kiyoko retorna à literatura explorando novamente um romance entre mulheres, mas desta vez num cenário de época.

A história acompanha duas protagonistas bastante diferentes. De um lado, Freya, a jovem inglesa mais cobiçada da temporada; do outro, Ivy, uma poeta norte-americana que se muda para a Inglaterra carregando a fama de escrever versos provocativos e sensuais. Em uma sociedade mais conservadora, sua presença desperta curiosidade, escândalo e julgamentos, servindo como ponto de partida para o encontro entre as duas.

O romance se desenvolve a partir desse ponto. As protagonistas têm personalidades fortes, são teimosas e não deixam passar uma oportunidade de trocar provocações. O relacionamento começa com uma energia que lembra um enemies to lovers leve. Elas não chegam a ser inimigas, mas existe uma tensão constante, repleta de ironias e alfinetadas, que torna a interação divertida e ajuda a construir a química entre elas.

No entanto, essa fase meio enemies logo passa e ambas começam a desenvolver sentimentos uma pela outra. Freya nunca havia se interessado por uma mulher antes, então tudo isso é novo para ela. Ivy, por outro lado, é uma mulher sáfica mais experiente. Porém, ela tem seus traumas e receios por conta de um acontecimento em seu passado.

Embora a história seja envolvente e bastante divertida, senti que o livro perde a oportunidade de explorar melhor sua ambientação histórica. Em vários momentos, eu simplesmente esquecia que estava lendo um romance ambientado na Era Vitoriana, já que a época parece servir mais como pano de fundo do que como um elemento que realmente influencia a narrativa. Faltam detalhes que tornem esse cenário mais vivo e marcante.

Nessa Inglaterra Vitoriana reinventada por Kiyoko, mulheres podem se casar com outras mulheres, mas isso lhes tira alguns direitos que são garantidos para as mulheres que se casam com homens. A autora tenta desenvolver esse debate e fazer disso um tema importante ao longo do romance, mas sem muita profundidade. O mais interessante acaba sendo o desenvolvimento do romance mesmo kk'

Em contrapartida, Hayley Kiyoko acerta na construção das protagonistas: ambas são carismáticas, têm personalidades fortes e uma química muito natural. As trocas de provocações, o humor e a evolução gradual do relacionamento são, sem dúvida, os pontos altos da obra e sustentam o interesse do leitor até o fim.

Os diálogos entre Freya e Ivy são outro ponto alto do livro. Elas têm conversas profundas que sustentam o interesse que elas desenvolvem uma pela outra e justificam seus afetos. Elas falam sobre suas infâncias, as coisas que gostam, religião, família e valores. O vínculo que elas desenvolvem é cuidadosamente desenvolvido pela autora, deixando claro que é muito mais do que apenas atração física (embora isso também tenha de sobra).

Os conflitos e obstáculos que elas enfrentam para conseguirem ficar juntas dão complexidade à trama. As trocas de cartas entre elas dão um toque delicado e romântico ao relacionamento e cada pequena interação entre elas é gostosa de acompanhar. É aquele tipo de livro que a gente sabe qual vai ser o final, mas se mantém engajado na leitura por querer saber como. Como elas vão superar as expectativas familiares e os preconceitos sociais?

Além disso, cada uma das personagens lida com suas próprias questões. O livro não gira em torno apenas do romance, mas explora temas individuais das personagens. Gostei especialmente de acompanhar a relação da Ivy com a sua escrita. Ao longo do romance, ela enfrenta um bloqueio criativo e o desenrolar desse problema foi interessante de acompanhar.

No fim, não foi um livro incrível, mas foi uma leitura leve e agradável que me manteve entretida por alguns dias. A escrita da Hayley ainda tem muito a amadurecer, mas já é fluida e envolvente. A premissa do livro é original e interessante e vale a pena a leitura.

Título Original: Where There's Room For Us ✦ Autor: Hayley Kiyoko ✦ Páginas: 368
Tradução: Giu Alonso ✦ Editora: Intrínseca
Livro recebido em parceria com editora

10 de julho de 2026

Ninguém Ensina a Gente a Ser Adulto, de Matheus Rocha: reflexões sobre amadurecimento e saúde mental


Ninguém Ensina a Gente a Ser Adulto, do autor Matheus Rocha, é um livro de crônicas e reflexões sobre os desafios da vida adulta. A obra é composta por textos curtos que abordam temas como amadurecimento, sonhos, ansiedade, saúde mental, relacionamentos, carreira, amizade, fracasso, solidão e propósito. São assuntos que costumam acompanhar a transição para a vida adulta e que aparecem aqui acompanhados pelas experiências pessoais do autor.

Um dos aspectos mais interessantes do livro é seu tom intimista. Matheus Rocha compartilha episódios da própria trajetória, fala sobre sua história de vida, suas inseguranças, dificuldades e vulnerabilidades. Ao mesmo tempo, evita transformar a obra em uma simples autobiografia. As experiências pessoais funcionam como ponto de partida para reflexões mais amplas, capazes de dialogar com leitores que possuem outras histórias e contextos.

A narrativa é simples, acessível e de tom acolhedor. Em muitos momentos, o autor se dirige diretamente ao leitor, criando a sensação de uma conversa sincera entre amigos. Essa proximidade é especialmente bem-vinda quando o livro aborda temas delicados como ansiedade, depressão, medicação psiquiátrica, autocuidado e a importância das redes de apoio. Sem recorrer a fórmulas prontas ou discursos excessivamente otimistas, o autor reconhece as dificuldades da vida adulta enquanto oferece uma perspectiva de esperança e crescimento.

Outro ponto positivo está na variedade de temas abordados. Os textos exploram diferentes facetas do amadurecimento: o medo do fracasso, a pressão para ter tudo planejado, as mudanças nos relacionamentos, a dificuldade de construir amizades na vida adulta e a busca por propósito. Além das reflexões, a obra também se destaca por suas frases marcantes. Diversos trechos convidam o leitor a pausar a leitura e pensar sobre a própria trajetória, tornando a experiência bastante pessoal.

É o tipo de livro que pode ser lido aos poucos, em pequenas doses, permitindo que cada texto seja absorvido com calma. Mas também é o tipo de livro que dá pra ler rapidamente, de uma única vez (como eu fiz kk'). Era uma noite de quinta-feira qualquer, tomei um banho premium e sentei pra ler, enquanto fazia marcações e anotações com caneta (algo que o próprio autor encoraja no início do livro). Foi como um abraço apertado antes de dormir. Aquela sensação de "Não sou só eu que me sinto assim".

Ninguém Ensina a Gente a Ser Adulto não pretende oferecer respostas definitivas para os desafios da vida. Sua proposta é mais humilde e, justamente por isso, mais eficaz: lembrar ao leitor que crescer envolve dúvidas, tropeços e recomeços constantes. Matheus usa suas próprias experiências e percepções para exemplificar suas reflexões, enquanto expõe fragilidades e cria conexão genuína com o leitor.

Com uma escrita afetuosa e reflexões honestas, Matheus Rocha constrói uma obra que pode encontrar eco especialmente em jovens adultos, mas que também tem potencial para tocar leitores de diferentes idades que estejam atravessando momentos de mudança, incerteza ou autoconhecimento. Afinal, amadurecimento é um processo que nunca termina.

Autor: Matheus Rocha ✦ Páginas: 224 ✦ Editora: Intrínseca
Livro recebido em parceria com editora
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29 de junho de 2026

É Tempo de Morangos, de Bruna Martiolli: um livro sobre como a literatura atravessa nossas vidas

Já faz algum tempo que acompanho a Bruna Martiolli no Instagram. A forma apaixonada como ela fala de literatura e, principalmente, de Clarice Lispector, sempre me encantou. Enquanto para muitos a literatura pertence aos excluídos e introvertidos, a Bruna sempre fez parecer que literatura é a coisa mais descolada que existe. Quando soube que ela lançaria um livro, fiquei imediatamente interessada. Ouvir a Bruna falar é um deleite, sua bagagem literária é enorme e eu fiquei curiosa sobre o que ela ainda tinha a nos contar, dessa vez de forma escrita.

É Tempo de Morangos é principalmente sobre a Bruna. Mas também é principalmente sobre livros. É sobre como os livros atravessam a Bruna e sobre como a Bruna caminha pelos livros. Ao longo dos capítulos, Bruna revela detalhes íntimos e sensíveis sobre sua vida pessoal, sua família, seus relacionamentos, seus valores e seus pensamentos. E, enquanto isso, entrelaça a sua história com as histórias dos livros que leu.

Terei sempre de ir eu porque há um impulso em mim que não cessa, um movimento que não aceita permanência por conveniência, que não compactua com o conformismo de conhecido no sofrimento.

Em uma narrativa fluida e agradável, Bruna cita livros e mais livros de forma muito natural, apresentando ao leitor o que cada livro lhe ensinou, ou em que momento de sua vida certo livro foi importante. Bruna conta sobre seu ensino médio enquanto fala sobre A Hora da Estrela, conta sobre sua mudança para Portugal enquanto cita Fernando Pessoa, conta sobre a faculdade e sobre sua formação enquanto relembra Capitães de Areia.

Invejo Caeiro por viver o presente e aceitar o que é visível, por rejeitar a ansiedade de querer saber o que vem depois ou o que se passa na vida dos outros.

É nítido que os livros são parte essencial da vida da Bruna e não só isso: é nítido também a clareza e a consciência que ela tem sobre isso. Ela consegue dizer com aparente facilidade o que cada livro ou autor lhe ensinou, como se fosse capaz de tirar algo profundo e significativo de cada leitura que faz.

Ao longo da leitura, me senti conversando com uma amiga, ouvindo-a me contar sobre sua vida numa conversa às vezes divertida, às vezes melancólica. Os trechos em que Bruna menciona a avó foram especialmente emocionantes para mim. Mas cabe mencionar também a relação linda que a Bruna tem com o pai. Relação essa que eu já admirava pelo Instagram e só passei a admirar ainda mais com a leitura do seu livro.

A cultura brasileira é um banquete infinito, impossível de se consumir de uma vez. Ela se multiplica a cada leitura, em cada sala de aula, em cada aluno, em cada gesto de quem insiste em ensinar, apesar de todas as dificuldades. A poesia é nosso alimento e nossa sobrevivência.

O interessante dessa leitura é que a Bruna põe tanto de si e é tão transparente que eu consegui, inclusive, identificar pontos em que eu discordo dela. Alguns de nossos pensamentos e formas de ver a vida são completamente opostas e, mesmo assim, eu a compreendo e respeito da mesma forma que compreendo e respeito uma amiga que não pensa como eu em tudo.

Tirei muitas boas lições dessa leitura, mas talvez a principal delas seja sobre a forma como a Bruna vê o envelhecimento. Eu sempre fui do time que tem medo de envelhecer e a visão da Bruna sobre o envelhecimento me fez repensar muitas certezas que eu tinha. Certamente é um ponto de vista que eu vou elaborar dentro de mim e refletir por bastante tempo.

Se tenho algo a oferecer ao mundo, é isto: uma vida entre palavras e a certeza de que há maturidades infinitamente mais libertadoras do que qualquer juventude idealizada.

É Tempo de Morangos pode ser uma leitura muito rápida, principalmente porque a Bruna escreve de forma muito agradável e é fácil passar várias páginas sem nem perceber. Mas minha experiência foi diferente: essa leitura me acompanhou ao longo de uma semana. Uma semana bem difícil, diga-se de passagem. Li um pouco todas as noites, com uma caneta em mãos, marcando minhas passagens preferidas e anotando indicações de livros. Terminei a leitura me sentindo genuinamente feliz e com uma enorme lista de livros que quero ler.

Literatura não é mero escapismo, nem entretenimento barato, mas também não deve ser enclausurada entre os muros acadêmicos. Ela vive no entre. Pode ser prazer, pode ser reflexão, pode ser denúncia, ou tudo isso junto.

Autora: Bruna Martiolli ✦ Páginas: 192 ✦ Editora: Intrínseca
Livro recebido em parceria com editora
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10 de junho de 2026

Metade da Idade Dele: mais um livro polêmico de Jennette McCurdy

Jennette McCurdy já se tornou uma autora cercada por expectativa. Depois da repercussão de Estou Feliz que Minha Mãe Morreu, seu livro autobiográfico que chamou atenção pelo título provocador, ficou claro que ela não busca escrever histórias confortáveis. Por isso, ao iniciar a leitura de seu novo livro, Metade da Idade Dele, eu já esperava uma experiência incômoda e chocante.

O próprio título já carrega provocação. Metade da Idade Dele sugere imediatamente uma relação marcada por desigualdade de idade, poder e maturidade, uma história sobre pedofilia. É um tema delicado, apesar de já bastante explorado em diferentes obras, de diferentes formatos, então comecei a leitura curiosa para entender o que Jennette traria de novo para essa discussão.

Não é meu primeiro contato com narrativas desse tipo. Já li Lolita, talvez a obra mais famosa quando se fala sobre esse assunto, e também Minha Sombria Vanessa, que atualiza essa discussão para tempos mais recentes. Em comum, essas histórias costumam explorar manipulação emocional, vulnerabilidade e a falsa sensação de consentimento. Por isso, meu interesse aqui estava em descobrir se haveria uma nova perspectiva, algo que ainda não tivesse sido explorado (o que é difícil, se levarmos em consideração a quantidade de histórias que já explorou esse tema, entre livros, filmes, séries, músicas e novelas).

Desde as primeiras páginas, Jennette mostra que continua fiel ao estilo direto e provocador. O livro abre com uma cena bem explícita e já mostra que não vai usar meias palavras, nem tentar amenizar o impacto de nada. A linguagem é franca e a autora parece determinada a colocar o leitor em territórios moralmente desconfortáveis.

A protagonista, Waldo, tem 17 anos e desenvolve um inexplicável interesse pelo seu novo professor. Inexplicável porque Korgy não é bonito ou atraente, além de ser muito mais velho, casado e pai de família. Bem distante da imagem idealizada de um galã. A atração dela não parece nascer de um encanto superficial ou estético, mas do reconhecimento de fragilidades. Ela o percebe como alguém quebrado, assim como também se sente. Waldo enxerga nele alguém que vai conseguir entendê-la.

Ao longo da narrativa, conhecemos melhor essa adolescente. O pai é ausente, a mãe vive relacionamentos conturbados, a situação financeira da família é instável e ela tenta aliviar vazios emocionais por meio de compras compulsivas. Esses elementos ajudam a construir uma personagem marcada por carência, impulsividade e busca constante por pertencimento. Ou seja, a vítima ideal de um pedófilo.

Um dos pontos centrais do livro, e também algo recorrente em obras dessa temática, é a ambiguidade. Em vários momentos, parece que é a jovem quem conduz a aproximação, quem insiste e quem de fato deseja ultrapassar os limites. O adulto, por sua vez, verbaliza que aquilo seria inadequado, mas ainda assim permanece envolvido na dinâmica. Nesse sentido, Metade da Idade Dele não traz, necessariamente, nada de novo, já que muitos dos livros sobre pedofilia são assim: traduzindo bem a manipulação sútil e quase imperceptível que acontece nesses casos. Um jeito do homem poder dizer: "Mas foi ela que quis, que insistiu, que provocou". Waldo tem uma personalidade forte, provocadora e com forte apelo sexual. O que contribui para a narrativa de que foi ela que escolheu isso.

Esse tipo de construção torna o debate complexo, porque pode gerar a impressão equivocada de que a responsabilidade seria dividida. No entanto, quando existe diferença clara de idade, maturidade e posição de autoridade, a responsabilidade ética continua sendo do adulto. Afinal, aos 17 anos o cérebro humano nem sequer terminou de se formar.

Apesar de ser provocador e abordar um tema espinhoso com franqueza, Metade da Idade Dele não me apresentou algo realmente novo em relação a outras obras que já exploraram esse mesmo conflito. A dinâmica da adolescente vulnerável e do adulto que falha em ocupar seu papel responsável já apareceu diversas vezes na literatura. Todo o roteiro se repete aqui: ele dizendo pra ela que ela é muito madura pra idade dela e blá-blá-blá.

Foi uma leitura super rápida, dinâmica e fluida. A Jannette escreve de forma muito direta, sem floreios e o livro é curto. Facilmente, uma leitura que dá pra fazer de uma vez só, em poucas horas. Eu gostei muito do livro, ainda que, como eu disse anteriormente, ele não tenha me apresentado nada de novo dentro desse assunto. Mas eu fiquei envolvida e curiosa pra saber o final, passando as páginas rapidamente.

A história me intrigou por completo. Eu queria saber não só o que aconteceria com Waldo e Korgy, mas também o que aconteceria com a mãe e com a amiga de Waldo e com a esposa do Korgy. E eu gostei de tudo, do começo ao fim. Devorei o livro e, quando terminei, imediatamente senti falta da Waldo. Se tivesse uma sequência eu leria com certeza. No fim, eu percebi que esse não é um livro sobre pedofilia, mas um livro sobre solidão. E sobre todas as vulnerabilidades de uma pessoa solitária.

Título Original: Half His Age ✦ Autor: Jennette McCurdy ✦ Páginas: 256
Tradução: Carolina Simmer ✦ Editora: Intrínseca
Livro recebido em parceria com editora
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