Tenho estado atenta aos lançamentos de Mariana Enriquez no Brasil. A autora, que também é jornalista, se tornou um dos nomes mais importantes da literatura de terror contemporânea em língua espanhola. Mais conhecida por seus livros de contos, Os Perigos de Fumar na Cama, As Coisas Que Perdemos no Fogo e Um Lugar Ensolarado Para Gente Sombria, sua obra costuma cruzar o fantástico e o horror com temas sociais e políticos, como violência de gênero, pobreza e ditadura, numa linhagem que dialoga com autores clássicos de terror, mas com a forte tradição gótica latino-americana.
Alguém Caminha Sobre o Seu Túmulo pertence à faceta menos conhecida de sua produção: a de cronista e ensaísta. E revela a mesma sensibilidade sombria e curiosa que marca sua ficção, agora aplicada ao relato pessoal e histórico.
Cada capítulo do livro é uma história completa. Mariana conta sobre algum cemitério que visitou, em algum lugar do mundo, com quem estava ou quem conheceu lá, e mescla tudo isso com alguns fatos históricos relevantes. Uma personalidade famosa que está enterrada naquele cemitério vira tema de sua narrativa, a arquitetura do local é descrita cuidadosamente e acontecimentos são contados como em um diário.
Meu sentimento predominante foi o de estar lendo relatos pessoais que Mariana escreveu em seu diário para se lembrar dessas visitas nos mínimos detalhes. Ela não só fala dos cemitérios, ela narra acontecimentos pessoais durante essas viagens, pessoas que conheceu, hotéis em que se hospedou, passeios que fez, como estava o clima e seu humor.
Eu gostei muito da proposta do livro, mas me confundi nas minhas expectativas, o que acabou fazendo com que o livro fosse muito diferente do que eu esperava. Eu imaginei que Mariana faria reflexões mais profundas sobre temas como vida, morte, tempo, saudade e finitude. Mas, na verdade, se trata de um livro muito mais descritivo do que psicológico. Mais narrativo do que reflexivo.
O que Mariana nos entrega é um diário de viagens ou um livro de memórias. É como sentar com ela enquanto ela conta: "Teve uma vez que eu visitei um cemitério muito bonito em Buenos Aires. Nessa mesma viagem, conheci uma pessoa interessante...." Esse é o tom geral do livro, junto com alguns elementos históricos.
Isso tem um efeito prático: ancorar cada cemitério a um momento específico da vida dela (a idade que tinha, quem estava junto com ela nessa viagem, o que ela estava sentindo, o que vestiu, como estava o clima) transforma um livro que poderia ser só uma lista de curiosidades macabras em algo com um fio narrativo. O livro é, no fundo, também uma autobiografia contada através de cemitérios, só que ela nunca declara isso abertamente, então o leitor sente a intimidade sem que ela seja o foco explícito.
O livro realmente pende mais para o modo "crônica-reportagem": ela conta a história do cemitério, do país, do corpo enterrado ali e do contexto político. É interessante, mas eu não me senti fisgada. Acho que depende muito do que o leitor espera. Cemitérios são, para mim, locais muito contemplativos, que me fazem refletir sobre vida e morte. Por isso, eu esperei do livro algo mais introspectivo, profundo, talvez até melancólico. Mas a proposta é outra. E tudo bem. Mas acho importante alertar para irem com as expectativas certas.
O livro funciona melhor lido aos poucos, capítulo a capítulo, já que a estrutura é episódica e a intensidade emocional varia bastante entre os textos. Os capítulos mais fortes são os que combinam bem a digressão pessoal com a pesquisa histórica. Alguns dos capítulos mais curtos soam mais como anotações de viagem do que crônicas completas.
Outra coisa que eu senti falta foram de fotos e imagens. O livro até traz algumas fotos, mas não são o bastante para que o leitor consiga visualizar plenamente os cenários. Se estamos falando de cemitérios como locais arquitetônicos e não espirituais, faria mais sentido ter mais imagens para que o leitor pudesse acompanhar as descrições com imagens.
Não é um guia turístico nem um ensaio acadêmico sobre a morte. Também não é um livro sobre reflexões provocadas pela finitude da vida. Alguém Caminha Sobre o Seu Túmulo é memória pessoal costurada à história, ao folclore local e à arquitetura. Cada visita puxa uma história (de um amante, de uma ditadura, de um crime, de um culto) que o cemitério guarda ou que Mariana viveu naquele local.
Em muitos momentos, a autora trata as visitas aos cemitérios como um jeito de "visitar" pessoas famosas que já morreram. O livro é cheio desses "encontros" com túmulos de personalidades, como Karl Marx, Douglas Adams, Elvis Presley, Eva Perón, entre outros.
Os cemitérios visitados estão em diferentes países e incluem Argentina, Inglaterra, Estados Unidos, Chile, Austrália, México, Cuba, Escócia, França, entre outros. É interessante o fascínio da autora por esses locais. É intrigante imaginar ela planejando sua próxima viagem com base no próximo cemitério que quer conhecer ou no túmulo que quer ver. Muitos de nós temos um pouco disso. Não necessariamente com cemitérios, mas com outros tipos de locais e hábitos. Há quem nunca deixe de visitar uma livraria durante suas viagens. Há quem sempre coma uma comida típica onde quer que vá. Algumas pessoas têm a tradição de fazer a mesma pose em diferentes pontos turísticos. Nossos interesses e nossos hábitos nos tornam quem somos. E Mariana Henriquez é uma turista de cemitérios.
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